Como Não Percebi Antes

— Como não percebi antes… — repetia Dona Lizete, com as mãos firmes sobre o peito magro do marido, onde o coração ainda pulsava, mas já em descompasso.

A luz da tarde atravessava a cortina rendada do quarto e caía sobre o rosto dele como um lençol morno. A respiração estava curta, entrecortada por silêncios longos, como se ele lutasse por mais uns minutos dentro daquele corpo que já não obedecia aos comandos da vontade.

— Você… sempre foi bom demais em esconder o que doía — disse ela, tentando manter a voz firme. — Até de mim, Zequinha. Justo de mim?

Ele quis sorrir, mas apenas os olhos sorriram.

— Eu não queria te preocupar, Lili… — disse num sussurro quase infantil. — Você sempre cuidou tanto de tudo… das crianças, da casa, da minha bagunça. Achei que, dessa vez, eu devia cuidar de você… escondendo.

Ela abaixou a cabeça e umedecia seus olhos no peito dele. Não era uma mulher dada a choros. Não daqueles que se mostram. Mas agora… agora ela chorava sem escolha.

— E me deixar fora disso foi cuidar de mim?

Ele demorou a responder. Tossiu. Respirou com dificuldade.

— Não… foi egoísmo. Foi medo. Medo de te ver sofrer. Medo de ver nos teus olhos a confirmação do que eu já sabia.

— Eu teria ficado, Zequinha — sussurrou ela. — Eu teria segurado tua mão todos os dias, mesmo que tremesse. Teria feito sopa, rezado por ti baixinho, comprado aquele xarope que tu detesta… só pra te provocar um sorriso. Mas tu me deixou de fora. De fora da tua dor. E agora… agora eu me sinto uma visita no teu adeus.

Ele virou o rosto com esforço, os olhos já enevoados, como se buscassem luz num céu de lembrança.

— Me perdoa, Lili…

Ela concordou, sem pressa.

— Já tá perdoado. Mas não me pede pra não chorar, viu? Porque vou chorar muito. Vou chorar por ti, por nós, pelos netos que ainda vão crescer, pelo café da manhã que não vamos tomar amanhã. E porque essa tua camisa azul vai continuar cheirando a ti por um tempo… até não cheirar mais. E isso me mata um pouco.

Ele apertou a mão dela, fraco, mas ainda com a força do amor.

— Pode chorar. Deve. Lá onde eu estiver, não vai me magoar… Vai ser teu modo de me amar quando eu já não puder responder.

— Não diz “lá onde eu estiver”… — disse ela. — Diz “aqui por perto”. Porque mesmo morto, homem teimoso que tu é, vai ficar zanzando por aqui só pra ver se eu tô comendo direito, se fechei a janela da sala, se não esqueci o gás ligado. Vai ou não vai?

Ele sorriu. Dessa vez, de verdade.

— Vou… — disse ele. — Mas sem fazer barulho. Só te olhando. Te admirando. Como fiz a vida toda, mesmo quando tu achava que eu não tava vendo.

Ela se inclinou e o beijou na testa. O tempo pareceu suspenso. Lá fora, o mundo andava, os carros passavam, as crianças riam na rua. Aqui dentro, o tempo era outro.

— Me espera do outro lado, Zequinha?

— Sempre. Mas sem pressa, Lili. Vive tudo o que tiver pra viver ainda. Sorri, planta roseira, reclama da novela… e quando chegar tua hora, se for tua vontade, vem devagar. Eu vou estar de camisa limpa e cabelo penteado, só esperando tu me dar mais um sermão.

Ela riu no meio do choro. Ele fechou os olhos. E dessa vez, não era sono.

Era despedida.

Silenciosa. Íntima. Permitida.





Silvia Marchiori Buss

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