Num Domingo de Sol

Num domingo de sol, ela saiu para caminhar. Não havia meta nem relógio, apenas o desejo de sentir o corpo mover-se, como se isso bastasse para organizar os pensamentos. Seguiu pelas ruas que conhecia de cor, aquelas onde cada esquina tinha um nome e cada muro, uma lembrança.

Até que, sem querer — ou talvez querendo —, entrou numa viela que nunca tinha visto. Era estreita, guardada por árvores tão antigas que suas copas se encontravam acima da rua, formando um teto verde e úmido. O ar ali era mais denso, quase silencioso, e cada pedra do chão parecia contar passos de outros que também haviam se aventurado sem saber o destino.

A princípio, achou que seria apenas um atalho. Mas, à medida que caminhava, percebeu que não havia retorno. O ponto de onde viera se dissolvera atrás dela, como se o mundo conhecido tivesse fechado a porta.

Foi aí que começaram os devaneios.

E se eu ficasse aqui para sempre? — pensou.
Imaginou-se sentada no chão, deixando o tempo escorrer sem pressa, até que as estações passassem por ela como estranhos passando na rua. Aqui, poderia deixar que o nome dela se perdesse, que as obrigações sumissem. Poderia ser apenas uma sombra quieta, respirando o ar verde e úmido dessa rua suspensa no tempo.

Mas logo veio outro pensamento: E se eu nunca mais me encontrasse?
Essa ideia a incomodou. Percebeu que, por mais que a vida de antes a sufocasse, era nela que sabia quem era — ou pelo menos quem achava que era. Aqui, no desconhecido, sentia-se uma estrangeira dentro do próprio corpo. Era como olhar para um espelho embaçado: sabia que havia um rosto ali, mas não conseguia distingui-lo.

Continuou andando. Passou por muros cobertos de hera que pareciam sussurrar. Pelas janelas fechadas, tinha a impressão de que alguém a observava — não com ameaça, mas com uma curiosidade antiga, como se esperassem que ela fizesse uma escolha.

No fundo, sabia que permanecer ali seria fácil. Bastava não dar mais um passo. Bastava aceitar não se reconhecer. Mas a realidade conhecida, com todas as suas arestas, ainda tinha um peso que a puxava de volta.

O caminho se abriu, enfim, para um campo pequeno, cheio de margaridas queimadas de sol. No meio dele, uma porteira antiga se escancarava para uma rua que ela conhecia. Ao atravessá-la, o som do mundo voltou: carros, vozes, o cheiro de pão saindo da padaria. Tudo igual ao que deixara para trás.

E, no entanto, algo tinha mudado. Não sabia dizer se era no corpo ou nos olhos, mas havia uma sensação de ter tocado algo que não podia nomear. Talvez um dia voltasse a buscar aquela viela. Ou talvez ela só existisse quando o coração estivesse disposto a se perder.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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