Ele Não Disse Sim

A igreja estava linda. Jasmim branco pendia dos altares como se a primavera tivesse ensaiado só para aquele dia. As velhinhas da família já choravam antes mesmo da marcha nupcial, e os padrinhos — todos com a cara suada e o terno apertado — tentavam disfarçar a emoção com sorrisos forçados e piadas infames.

Ela entrou radiante. Vestido de renda francesa, bordado à mão pela tia-avó que jurava ter costurado até para missas do Vaticano. A música soava como trilha sonora de filme romântico, e os fotógrafos clicavam com a fome de quem achava que aquilo era mesmo o começo de uma eternidade.

Do lado do altar, ele. Terno impecável, cabelo engomado, olhos ligeiramente arregalados como quem viu um fantasma de véu.

— Está tudo bem? — cochichou o padrinho.
— Tá — ele disse, com a convicção de quem diz que vai parar de beber segunda-feira.

O padre era desses simpáticos, moderninhos. Começou o sermão com piadinhas sobre sogras e terminou com metáforas sobre o amor ser uma plantinha. A noiva ria. O noivo... nem tanto.

E então veio o momento.

— Fulano de Tal, você aceita Beltrana de Tal como sua legítima esposa, para amá-la e respeitá-la, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte os separe?

Silêncio.

A igreja, antes cheia de tosses e suspiros emocionados, congelou. Nem o bebê que chorava parou. Era como se o tempo tivesse prendido a respiração.

— Você aceita...? — repetiu o padre, confuso.

Ele olhou para ela. Ela, com os olhos brilhando e a mão estendida, segurava o buquê como quem segura o próprio destino.

Ele piscou. Respirou fundo. Moveu os lábios.

— Eu...

Um ruído seco saiu. Algo entre um soluço engasgado e um grito mudo. A boca se abriu, mas o “sim” não veio.

Ela arqueou as sobrancelhas. Ele olhou para o altar, para os bancos, para o teto, como se buscasse uma rota de fuga escondida entre os vitrais.

O padre pigarreou. A tia-avó desmaiou. Alguém ligou para o SAMU achando que era AVC.

E ele? Nada. Nem sim, nem não. Apenas um homem no altar, cercado por flores caras, expectativas inflacionadas e um vestido de trinta parcelas.

Ela, firme, abaixou a mão.

— É isso? — perguntou, com a calma de quem sabe que o caos já aconteceu e agora só resta assistir.

Ele tentou falar. Nada. Tentou chorar. Também não conseguiu. Apenas um leve tremor no queixo, como se uma avalanche silenciosa descesse pelo corpo inteiro.

Ela deu um passo para trás. O véu balançou como se se despedisse sozinho.

Do fundo da igreja, alguém espirrou.

— A vida tem dessas, né? — murmurou a mãe da noiva, abrindo o leque.

O padre suspirou, fechou o livrinho de missal e anunciou:

— Vamos... fazer uma pausa.

Não houve escândalo. Nem fuga dramática com o vestido enganchando nos bancos. Só aquele momento suspenso, ridículo e trágico, onde nem o sim, nem o não, foram convidados a comparecer.

Ele ficou ali, parado, com os olhos marejados e a boca seca.

Ela caminhou até o fundo da igreja, sozinha. No caminho, pegou o controle do som e desligou a marcha nupcial.

Lá fora, o céu ameaçava chover. Mas não choveu.

Talvez chovesse depois. Talvez ele dissesse algo dias depois. Talvez eles se reencontrassem em outro altar, outra cidade, outra vida.

Ou talvez não.

Afinal... ele não disse sim.

 

Silvia Marchiori Buss

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