Despedida...
Dar adeus dói demais.
Não importa se é um amor, um amigo ou a própria vida que está ali, na beira da
estação, na soleira da porta, na última dobra do tempo. Dói porque a despedida
carrega sempre um pedaço da gente, e ninguém sai inteiro depois de partir ou
ser deixado.
Há despedidas longas,
ensaiadas em silêncios, como se a gente se acostumasse à ausência antes dela
chegar. E há aquelas súbitas, que atravessam a garganta sem pedir licença, como
um vento frio que invade a sala.
Entre amores, a despedida
tem o gosto do que não foi dito. O corpo ainda quente, a cama ainda
desarrumada, mas a decisão já feita. Entre amigos, ela pesa de outro jeito — um
aceno que não se sabe se terá volta, um “a gente se fala” que o tempo vai
desbotando.
E, com a vida, a despedida
é a mais silenciosa de todas. Vem sem aviso ou com um calendário de dias
contados, mas nunca no momento certo. Ninguém está pronto para não estar.
Talvez o que doa tanto não
seja o ato de se despedir, mas a certeza de que o que foi vivido não cabe em
nenhum gesto final. É sempre um resto — de perfume, de voz, de risada — que
fica nos cantos e se recusa a ir embora.
No fim, as despedidas são
como portas que fecham devagar. E a gente, do lado de dentro, fica com o ouvido
colado na madeira, tentando ouvir, pela última vez, os passos que se afastam.
Silvia Marchiori Buss
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