Aurora Boreal

O céu desabou às três da tarde.

Não com chuva. Nem com trovões. Desabou em silêncio. Um silêncio tão alto que as pessoas desligaram os ventiladores para ouvir melhor.

Veio primeiro uma sombra estranha, um escurecer suave que não fazia sentido naquele janeiro de quarenta e dois graus. E então, como se o universo tivesse cometido um deslize estético, surgiram as luzes: verdes, lilases, azuis, dançando sobre os prédios como véus de um espetáculo fora de hora.

Alguém gritou “é o apocalipse!”
Alguém sussurrou “é milagre.”
E um padre, de batina frouxa e fé quase vencida, caiu de joelhos no cruzamento da Av. Getúlio Vargas com a Osvaldo Aranha e murmurou, com a voz trêmula:
— Ela voltou.

“Ela quem?”, perguntaram.
Mas o padre só fechou os olhos, como quem não precisa mais entender.

No centro da praça, sob um flamboyant ardendo em flores cor-de-sangue, havia uma mulher dançando.

Vestia um casaco de lã lilás — isso mesmo, lã, em pleno janeiro — e seus cabelos pareciam em estado de vento, desalinhados de qualquer lógica ou gravidade. A pele era da cor da primeira luz do dia. E seus olhos… ah, os olhos… carregavam um mapa que ninguém sabia ler.

Não falava. Não sorria. Mas dançava.

Dançava como se o corpo fosse feito de música que ninguém ouvia. Como se a pele soubesse o caminho de volta para algum lugar esquecido. Como se estivesse, enfim, em casa.

Preso à barra de sua blusa, com um alfinete enferrujado, havia um bilhete escrito com letra de criança:

Aurora Boreal. Cuidem bem.

A notícia se espalhou feito cheiro de pão novo. Não havia internet, nem manchete. Mas a cidade soube. E veio.

Vieram os céticos, os jornalistas, os velhos entediados. Vieram os que ainda rezavam e os que já tinham esquecido como era. Vieram mulheres grávidas, crianças de colo, gente que nunca se atrasava e decidiu se atrasar.

Ficaram ali, em roda, olhando aquela mulher que dançava para o céu como se tivesse voltado de um lugar do qual ninguém mais volta.

Ela ficou sete dias e oito noites.

Durante esse tempo, coisas aconteceram:

– Os relógios pararam de apitar. Mas ninguém se atrasou.
– As pessoas dormiam melhor. Sonhavam mais. Choravam também.
– Os donos das padarias passaram a oferecer pão fresco de graça antes do meio-dia.
– Casais separados há anos se sentaram no mesmo banco da praça, em silêncio, e compartilharam uma bergamota.
– Um homem que nunca tinha dito “te amo” telefonou para a irmã e disse.
– Um cachorro idoso latiu pela primeira vez em meses.
– E uma mulher com um tumor terminal acordou e disse, simplesmente: “hoje eu não sinto dor.”

A cidade ficou bonita. Não bonita de arquitetura ou de enfeite. Bonita de gente. De gesto. De vontade. Como se, por um descuido do tempo, todos tivessem se lembrado — por um instante — do que realmente eram.

E então, no oitavo dia, bem na hora do pôr do sol, Aurora Boreal subiu no telhado do hospital municipal, abriu os braços como quem aceita um reencontro e se desfez em feixes de luz verde-água.

Não deixou despedida. Nem instruções.
Apenas uma caixinha de música, repousando ao lado de uma cadeira de rodas.
Tocava sozinha. A melodia era estranha, como uma canção que ainda não havia sido inventada.
E, gravado no fundo da caixinha, em letras quase apagadas:

“Voltei para o céu que me lembrava.”

Ninguém falou sobre isso nos jornais. O governo disse que foi um fenômeno climático. Os cientistas falaram em distúrbios geomagnéticos. A igreja emitiu nota de cautela. Os céticos riram.

Mas a cidade… bem, a cidade nunca mais foi a mesma.

Até hoje, quando o céu resolve brincar de cor — mesmo que sutilmente — há quem largue tudo e corra para o centro, com os olhos marejados e o coração meio apertado, torcendo para que, quem sabe, ela volte.

Mesmo que por um minuto.
Mesmo que só para dançar.

Porque há quem diga que Aurora Boreal não era mulher.
Nem profecia. Nem loucura.

Era só o futuro passando antes da hora.
Ou um lampejo de tudo aquilo que um dia, se merecermos, ainda poderemos ser.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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