" Flores de Plástico"

Eu sempre disse a ela que iria primeiro.

Não era promessa nem superstição, era só aquela certeza tranquila de quem sente o peso dos ossos e acha que sabe o próprio limite. Eu, sim, vivia com os joelhos roncando nas manhãs frias, com o coração às vezes batendo fora do compasso. Ela parecia feita de luz e vento, como se o corpo dela não pesasse.

Mas foi ela que se adiantou.
Foi embora sem pedir licença. Sem aquele diálogo que os casais mais antigos, mesmo a contragosto, acabam tendo sobre a finitude. A gente nunca falou sobre isso. Não por medo, mas por pura confiança boba: eu iria primeiro, ela viria depois, com calma, quando o tempo já não fosse um fardo para nenhum dos dois.

No dia em que ela partiu, fiquei sentado na beira da cama por horas. O quarto ainda tinha o cheiro do creme que ela passava nas mãos à noite. A xícara do café estava pela metade na cozinha. Tudo tão vivo que parecia sacrilégio aceitar a ausência. Mas a vida é impiedosa: cedo ou tarde, alguém pergunta o que fazer com o corpo. E ali, entre a dor e a urgência, eu me vi diante de uma escolha que nunca quis fazer.

Cremar?
Diziam que era prático. Que assim não ficava a saudade presa a um lugar. Mas eu queria que ela ficasse presa, sim. Eu precisava de um ponto fixo no mapa para continuar encontrando-a, mesmo que fosse só com o olhar.
E então pensei na colina.
O cemitério bucólico, como ela dizia, lá no alto. Quantas vezes subimos juntos para visitar amigos que já haviam partido. Ela gostava de ficar mais um pouco, depois das visitas, só para olhar o horizonte. “Dá pra ver o mundo todo daqui”, dizia. E eu sabia que ela não falava do mundo lá embaixo, mas do mundo que cabia dentro dela.

Foi lá que a deixei.
E, a partir daquele dia, passei a subir todos os dias.
Não como quem cumpre um ritual frio, mas como quem visita a própria casa.
Eu acordava, tomava o café amargo — ela sempre dizia que eu exagerava no pó — e passava na floricultura. A moça já me conhecia. “O que vai querer hoje, seu Álvaro?” perguntava com um sorriso cúmplice. E eu olhava cada flor como quem lê cartas antigas. Havia dias de rosas vermelhas, quando eu queria que ela sentisse o calor que ainda me queimava no peito. Havia dias de crisântemos brancos, quando minha alma pedia silêncio. Lírios para quando a saudade vinha macia. Girassóis para lembrá-la de que o sol ainda nascia, mesmo sem ela.

Cada flor era um recado.
Eu falava com ela em pétalas.
A chuva não me impedia, o vento não me detinha. E, nos dias de sol, o caminho até a colina parecia um reencontro. Eu chegava sem pressa, limpava a pedra, ajeitava as flores e ficava ali, conversando baixinho. Falava do dia, dos vizinhos, das notícias que ela teria rido ou reclamado. Às vezes, ficava só em silêncio. Era o suficiente.

Mas o tempo é um ladrão silencioso.
Não percebi quando minhas pernas começaram a pesar mais que o coração.
A subida ficou mais lenta. O fôlego, mais curto. Até que um dia, acordei, olhei a janela e soube: não conseguiria chegar até ela. Não naquele dia. Nem nos próximos. O corpo me dizia que o amor continuava, mas a estrada, não.

Passei alguns dias remoendo isso. Me senti covarde, ausente. Como explicar a ela?
E então decidi: iria uma última vez.

Fui à floricultura, mas não pedi as flores frescas. Caminhei até o canto onde ficavam as de plástico. Toquei cada uma com o mesmo cuidado de sempre. Escolhi um arranjo singelo, mas bonito — tons de rosa e branco, as cores que ela mais gostava na primavera. A moça me olhou com surpresa, mas não perguntou nada. Talvez tenha entendido.

A subida foi lenta, como se cada passo fosse uma despedida. Quando cheguei, apoiei as mãos na pedra fria e respirei fundo.
— Perdoa… — falei, e minha voz soou estranha, como se não fosse minha. — Não tenho mais forças pra vir sempre. Essas flores… não vão murchar. Vão ficar aqui, te esperando. São de mentira, mas o amor é o mesmo.

Coloquei o arranjo sobre a lápide e fiquei um tempo olhando o horizonte. Aquele mesmo que ela dizia conter o mundo. E, vi que ela estava certa: dali, eu via tudo. Via nosso passado, nossas conversas, as risadas no caminho da colina, as manhãs de café, o corpo dela encostando no meu na hora de dormir.

Na descida, não olhei para trás.
Sabia que, mesmo de plástico, aquelas flores iriam durar mais do que eu.
E, de algum jeito, eternizariam o que a gente foi — não o que fomos no fim, mas o que fomos todos os dias antes dele.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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