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Doente de Mim

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Acordei com o peso do mundo inteiro em cima de mim. E não era exagero, não. Era exatamente isso: o mundo tinha me engolido e resolvido fazer morada nas minhas costas, como se eu fosse uma tartaruga emocional. O despertador gritava na cabeceira, anunciando mais um dia inútil de luta contra o meu pior inimigo: eu mesma. Minha rotina começava sempre do mesmo jeito. Abria os olhos e pensava: Por que não desligaram a fábrica de almas na fila errada? Depois me lembrava que, na verdade, até tentei pedir o reembolso, mas a política divina não aceita devoluções. O que me restava? Encarar mais um dia com a graça de uma lagarta que nunca vai virar borboleta. Me levantei da cama e fui direto ao espelho. Encarei aquela figura pálida e desgrenhada. A imagem me devolvia um olhar de recriminação, como se dissesse: Você de novo? Balancei a cabeça e respondi baixinho: — Pois é, minha filha. Também não estou feliz com isso. Decidi que precisava fazer algo diferente. A monotonia estava me matando mais rá...

Vidas impossíveis

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Era uma tarde abafada de novembro quando Laura, ao arrumar o sótão da casa da avó, encontrou um velho diário de capa azul. O couro estava rachado pelo tempo, e as letras douradas do título, “Vidas Impossíveis”, ainda brilhavam com uma estranha vitalidade. A curiosidade pulsou em seus dedos enquanto folheava as páginas amareladas.  O diário não era um relato comum. Era uma coleção de histórias que desafiavam a lógica. Em cada página, uma vida distinta era narrada, com detalhes minuciosos e intensamente vívidos. Havia um relojoeiro que podia parar o tempo, uma mulher que conversava com as estrelas, um pescador que encontrava cidades submersas em seus mergulhos e um homem que vivia simultaneamente em dois corpos. Laura mergulhou na leitura, fascinada. Porém, algo a inquietava. Pequenos detalhes nas histórias pareciam coincidir demais com lembranças de sua própria família. Na terceira noite lendo o diário, Laura chegou a uma página que a fez estremecer: uma história sobre uma jovem que...

Óculos, Celular e Carteira

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Jorge era um homem pleno. Sua vida fluía como um rio em dias de primavera: tranquila, abundante e cheia de promessas. Empresário respeitado, pai amoroso, amigo generoso, ele carregava consigo um brilho que parecia contagiar todos ao seu redor. Nada em sua vida parecia pequeno ou insuficiente; cada detalhe fazia parte de uma construção sólida e cheia de propósito. Naquela manhã de terça-feira, Jorge saiu de casa como de costume. Vestiu o terno impecável, ajeitou os óculos no rosto, colocou o celular no bolso do paletó e verificou rapidamente o conteúdo da carteira: um cartão de crédito, uma foto dos filhos ainda pequenos, alguns trocados e um recibo amassado de um jantar especial com sua esposa. Objetos banais, mas que, juntos, contavam parte da história de sua vida. Quando o telefone tocou naquela tarde, anunciando o acidente, o mundo de sua família desabou. Não houve aviso, preparação ou despedida. A morte chegou como um ladrão: silenciosa e implacável, arrancando Jorge de seus dias p...

Tirando o soluço do peito

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A primeira vez que ele a viu, ela penteava os cabelos na varanda de uma casa pintada de amarelo. A rua era modesta, mas quando ela sorria, parecia que até os paralelepípedos ganhavam vida. Foi naquele instante, sob a luz dourada de um pôr do sol, que Raul teve certeza: amaria Cecília para sempre. E assim foi. Casaram-se jovens, enfrentaram as dificuldades típicas de quem começa a vida com mais sonhos do que certezas. Ele, dedicado ao ofício de marceneiro, transformava a madeira em arte. Ela, professora, moldava futuros nas salas de aula. Entre os dois, havia mais do que amor: havia parceria, respeito, e aquela cumplicidade que dispensa palavras. Os anos passaram. Criaram filhos, ganharam netos e, com isso, muitas histórias. Já aposentados, decidiram que era hora de realizar o sonho de viajar juntos para a Europa. Paris, Roma, Lisboa... Cecília adorava Fernando Pessoa e dizia que precisava sentir o Tejo para entender seus versos. O embarque foi uma festa. Cecília, com seus olhos ainda b...

O piano silencioso

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Na sala principal de uma velha casa no bairro mais antigo da cidade, repousava um piano de cauda. Grande, negro e brilhante, parecia absorver toda a luz das manhãs que atravessavam as cortinas desbotadas. Era uma peça imponente, mas silenciosa. Havia anos que ninguém tocava suas teclas. Pertencia a Dona Beatriz, uma mulher de oitenta e poucos anos, que andava com passos curtos e a memória esburacada. Ela morava sozinha, e resistia à insistência dos filhos em vender o velho piano. - "Este piano me conhece mais do que vocês", dizia, com um tom que calava qualquer resposta. Beatriz fora uma pianista renomada em sua juventude. Seus dedos tinham dançado pelos palcos do mundo, arrancando aplausos que faziam tremer os lustres das casas de ópera. Mas a vida, sempre imprevisível, a afastara do palco. Primeiro, a morte do marido. Depois, a necessidade de criar os três filhos. E, por fim, as mãos que começaram a tremer com a idade. Mesmo assim, o piano continuava ali. Não como um instru...

Poeira da Vida

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Ele sentia o calor do sol em sua pele enquanto caminhava pelo campo, os pés descalços afundando na terra seca. O aroma da grama queimada pelo verão misturava-se ao das flores selvagens que resistiam teimosamente ao calor. Era como se cada passo o conectasse mais ao que restava do seu ser, como se a terra sugasse a vida por seus calcanhares. No entanto, não era o campo que o fazia refletir sobre o tempo que lhe escapava. Eram suas mãos. Mãos que antes sustentaram o mundo- ou pelo menos a sua pequena parcela dele. Elas haviam construído, acariciado, lutado. Agora, observava como a pele se tornara fina e translúcida, revelando um mapa de veias e linhas que mais pareciam trilhas de uma jornada longa demais. Ao longe, avistou uma árvore solitária, imponente, com galhos que pareciam braços erguidos ao céu em um pedido de clemência. Ele se aproximou devagar, sentindo o peso de cada ano sobre seus ombros. Quando chegou, sentou-se sob sua sombra, deixando o vento brincar com seus cabelos ralos....

Tsunami

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A onda veio para tirar a paz, mas também veio para mostrar a força que a mulher nunca pensou que tivesse. Ela afundava e, ao mesmo tempo, tentava nadar. Cada respiração parecia se perder no sal do que ela havia perdido. As memórias dançavam em sua mente, fragmentos de momentos doces e difíceis, lembranças que queria esquecer e outras que queria segurar para sempre. Mas o tsunami interno não fazia distinção, levava tudo que podia, deixando apenas destroços e um vazio dolorido onde antes havia certeza. E assim, Luciana foi levada, consumida, aniquilada por essa força. O tsunami não a permitia descansar, ele a movia como uma folha á deriva, sem rumo, sem propósito. Nessa devastação, começou a se questionar se haveria “depois”, um momento em que essa força, enfim, desistiria dela. Luciana se perguntava se, depois da destruição, haveria algo dela que valeria a pena reconstruir. Conforme os dias se transformaram em semanas, e as semanas em meses, algo inesperado começou a acontecer. No mei...