Doente de Mim
Acordei com o peso do mundo inteiro em cima de mim. E não era exagero, não. Era exatamente isso: o mundo tinha me engolido e resolvido fazer morada nas minhas costas, como se eu fosse uma tartaruga emocional. O despertador gritava na cabeceira, anunciando mais um dia inútil de luta contra o meu pior inimigo: eu mesma.
Minha rotina começava sempre do mesmo jeito. Abria os olhos e pensava: Por que não desligaram a fábrica de almas na fila errada? Depois me lembrava que, na verdade, até tentei pedir o reembolso, mas a política divina não aceita devoluções. O que me restava? Encarar mais um dia com a graça de uma lagarta que nunca vai virar borboleta.
Me levantei da cama e fui direto ao espelho. Encarei aquela figura pálida e desgrenhada. A imagem me devolvia um olhar de recriminação, como se dissesse: Você de novo? Balancei a cabeça e respondi baixinho:
— Pois é, minha filha. Também não estou feliz com isso.
Decidi que precisava fazer algo diferente. A monotonia estava me matando mais rápido do que o colesterol alto. Resolvi, então, visitar o médico. Não um médico qualquer, mas o mais famoso da cidade, especialista em tratar "dores da alma". Claro, ele cobrava o preço de um rim para cada consulta, mas eu já estava cansada de ser doente de mim mesma.
Chegando lá, o consultório era um espetáculo de sofisticação: paredes brancas, cadeiras de couro e uma música ambiente que mais parecia uma tentativa de hipnose. Dr. Valério me recebeu com um sorriso profissional, daquele tipo que você paga caro para ver.
— Em que posso ajudá-la, dona...?
— Clarice — respondi. — Acho que estou morrendo de mim mesma.
Ele ergueu a sobrancelha, ajeitando os óculos dourados.
— Interessante. Pode me descrever os sintomas?
Suspirei. Era difícil colocar aquilo em palavras, mas tentei:
— Sinto um vazio imenso, como se eu fosse um balão furado tentando flutuar. Tudo me irrita. A luz do dia, o barulho dos pássaros, até a minha respiração me dá nos nervos. Parece que estou em guerra comigo mesma.
O médico anotava freneticamente, como se tivesse acabado de descobrir um caso clínico digno de prêmio. Quando terminei, ele fechou a caneta com um estalo teatral e disse:
— Clarice, você sofre de uma síndrome muito comum nos dias de hoje: Excesso de Consciência Própria.
Fiquei boquiaberta.
— E isso tem cura?
Ele sorriu com a tranquilidade de quem sabe que tem a solução mais cara do mercado.
— Pode ser administrado, mas vai exigir esforço. Recomendo um tratamento intensivo: yoga, meditação e, principalmente, evitar ao máximo pensar em si mesma.
Saí de lá com uma lista interminável de tarefas. No primeiro dia, tentei fazer yoga. Coloquei um tapete no chão e segui um vídeo na internet. A instrutora dizia para eu me conectar com o universo, mas tudo o que consegui foi conectar meu rosto ao chão depois de cair numa posição esquisita.
Depois, tentei a meditação. Sentei-me no sofá, fechei os olhos e comecei a repetir um mantra qualquer que achei online. Foi inútil. No final da sessão, minha cabeça estava cheia de perguntas sobre o padeiro da esquina. Quem era ele? Por que o pão estava sempre tão caro?
Naquela mesma semana, conheci Hugo. Ele entrou na minha vida de um jeito completamente casual — e irritante. Estava numa fila de banco, reclamando baixinho da demora, quando ele me respondeu de pronto:
— Se você acha que isso é ruim, experimente ficar preso num elevador com um grupo de pessoas cantando parabéns.
Ri, mas com o riso amargo de quem não tinha energia para conversas aleatórias. Ele não pareceu se importar. Continuou falando, com o tipo de humor leve que, de alguma forma, desarmava as minhas defesas. Descobri que Hugo era padeiro. Sim, o mesmo padeiro que ocupava meus devaneios meditando.
Ele era cheio de teorias estranhas. Dizia, por exemplo, que a massa do pão reflete o estado emocional de quem o faz. Achei aquilo uma besteira, mas ele jurava que funcionava. Com o tempo, Hugo começou a me enviar pães "personalizados". Cada um dos pães vinha com uma frase escrita em papelzinho dentro da embalagem:
— "Quem ri de si mesmo nunca fica sem companhia."
— "A vida é como fermento: cresce mais se você relaxar."
Era ridículo. Era bobo. E, aos poucos, começou a funcionar.
Fui me apaixonando!
Nosso "namoro", se é que se pode chamar assim, não era perfeito. Hugo era o tipo de pessoa que falava sobre tudo, enquanto eu preferia silêncios. Ele queria sempre me tirar de casa, e eu só pensava em como a cama era um refúgio seguro. Mas havia algo nele que me fazia continuar.
Um dia, em uma discussão mais séria, soltei:
— Hugo, você não entende. Eu sou doente de mim mesma.
Ele riu. Não um riso debochado, mas um daqueles que trazem luz a um quarto escuro.
— Clarice, todo mundo é um pouco doente de si mesmo. A diferença é que eu aceito minhas manias e você briga com as suas.
As palavras ficaram ecoando. Ele estava certo, claro. A questão nunca foi me curar. Era aprender a olhar para dentro com menos raiva e mais paciência.
Com o tempo, Hugo me mostrou que talvez não houvesse nada de errado em ser como eu era — cheia de camadas, como um pão bem-feito. Afinal, viver consigo mesma, com todas as imperfeições, é um aprendizado constante.
E naquela noite, ao me olhar no espelho, vi algo novo. Não era só compaixão. Era amor.
Amor por mim mesma. E, claro, por Hugo, o padeiro que conseguiu amassar minhas defesas e assar um novo capítulo na minha vida.
Minha rotina começava sempre do mesmo jeito. Abria os olhos e pensava: Por que não desligaram a fábrica de almas na fila errada? Depois me lembrava que, na verdade, até tentei pedir o reembolso, mas a política divina não aceita devoluções. O que me restava? Encarar mais um dia com a graça de uma lagarta que nunca vai virar borboleta.
Me levantei da cama e fui direto ao espelho. Encarei aquela figura pálida e desgrenhada. A imagem me devolvia um olhar de recriminação, como se dissesse: Você de novo? Balancei a cabeça e respondi baixinho:
— Pois é, minha filha. Também não estou feliz com isso.
Decidi que precisava fazer algo diferente. A monotonia estava me matando mais rápido do que o colesterol alto. Resolvi, então, visitar o médico. Não um médico qualquer, mas o mais famoso da cidade, especialista em tratar "dores da alma". Claro, ele cobrava o preço de um rim para cada consulta, mas eu já estava cansada de ser doente de mim mesma.
Chegando lá, o consultório era um espetáculo de sofisticação: paredes brancas, cadeiras de couro e uma música ambiente que mais parecia uma tentativa de hipnose. Dr. Valério me recebeu com um sorriso profissional, daquele tipo que você paga caro para ver.
— Em que posso ajudá-la, dona...?
— Clarice — respondi. — Acho que estou morrendo de mim mesma.
Ele ergueu a sobrancelha, ajeitando os óculos dourados.
— Interessante. Pode me descrever os sintomas?
Suspirei. Era difícil colocar aquilo em palavras, mas tentei:
— Sinto um vazio imenso, como se eu fosse um balão furado tentando flutuar. Tudo me irrita. A luz do dia, o barulho dos pássaros, até a minha respiração me dá nos nervos. Parece que estou em guerra comigo mesma.
O médico anotava freneticamente, como se tivesse acabado de descobrir um caso clínico digno de prêmio. Quando terminei, ele fechou a caneta com um estalo teatral e disse:
— Clarice, você sofre de uma síndrome muito comum nos dias de hoje: Excesso de Consciência Própria.
Fiquei boquiaberta.
— E isso tem cura?
Ele sorriu com a tranquilidade de quem sabe que tem a solução mais cara do mercado.
— Pode ser administrado, mas vai exigir esforço. Recomendo um tratamento intensivo: yoga, meditação e, principalmente, evitar ao máximo pensar em si mesma.
Saí de lá com uma lista interminável de tarefas. No primeiro dia, tentei fazer yoga. Coloquei um tapete no chão e segui um vídeo na internet. A instrutora dizia para eu me conectar com o universo, mas tudo o que consegui foi conectar meu rosto ao chão depois de cair numa posição esquisita.
Depois, tentei a meditação. Sentei-me no sofá, fechei os olhos e comecei a repetir um mantra qualquer que achei online. Foi inútil. No final da sessão, minha cabeça estava cheia de perguntas sobre o padeiro da esquina. Quem era ele? Por que o pão estava sempre tão caro?
Naquela mesma semana, conheci Hugo. Ele entrou na minha vida de um jeito completamente casual — e irritante. Estava numa fila de banco, reclamando baixinho da demora, quando ele me respondeu de pronto:
— Se você acha que isso é ruim, experimente ficar preso num elevador com um grupo de pessoas cantando parabéns.
Ri, mas com o riso amargo de quem não tinha energia para conversas aleatórias. Ele não pareceu se importar. Continuou falando, com o tipo de humor leve que, de alguma forma, desarmava as minhas defesas. Descobri que Hugo era padeiro. Sim, o mesmo padeiro que ocupava meus devaneios meditando.
Ele era cheio de teorias estranhas. Dizia, por exemplo, que a massa do pão reflete o estado emocional de quem o faz. Achei aquilo uma besteira, mas ele jurava que funcionava. Com o tempo, Hugo começou a me enviar pães "personalizados". Cada um dos pães vinha com uma frase escrita em papelzinho dentro da embalagem:
— "Quem ri de si mesmo nunca fica sem companhia."
— "A vida é como fermento: cresce mais se você relaxar."
Era ridículo. Era bobo. E, aos poucos, começou a funcionar.
Fui me apaixonando!
Nosso "namoro", se é que se pode chamar assim, não era perfeito. Hugo era o tipo de pessoa que falava sobre tudo, enquanto eu preferia silêncios. Ele queria sempre me tirar de casa, e eu só pensava em como a cama era um refúgio seguro. Mas havia algo nele que me fazia continuar.
Um dia, em uma discussão mais séria, soltei:
— Hugo, você não entende. Eu sou doente de mim mesma.
Ele riu. Não um riso debochado, mas um daqueles que trazem luz a um quarto escuro.
— Clarice, todo mundo é um pouco doente de si mesmo. A diferença é que eu aceito minhas manias e você briga com as suas.
As palavras ficaram ecoando. Ele estava certo, claro. A questão nunca foi me curar. Era aprender a olhar para dentro com menos raiva e mais paciência.
Com o tempo, Hugo me mostrou que talvez não houvesse nada de errado em ser como eu era — cheia de camadas, como um pão bem-feito. Afinal, viver consigo mesma, com todas as imperfeições, é um aprendizado constante.
E naquela noite, ao me olhar no espelho, vi algo novo. Não era só compaixão. Era amor.
Amor por mim mesma. E, claro, por Hugo, o padeiro que conseguiu amassar minhas defesas e assar um novo capítulo na minha vida.

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