O piano silencioso
Na sala principal de uma velha casa no bairro mais antigo da cidade, repousava um piano de cauda. Grande, negro e brilhante, parecia absorver toda a luz das manhãs que atravessavam as cortinas desbotadas. Era uma peça imponente, mas silenciosa. Havia anos que ninguém tocava suas teclas.
Pertencia a Dona Beatriz, uma mulher de oitenta e poucos anos, que andava com passos curtos e a memória esburacada. Ela morava sozinha, e resistia à insistência dos filhos em vender o velho piano.
- "Este piano me conhece mais do que vocês", dizia, com um tom que calava qualquer resposta.
Beatriz fora uma pianista renomada em sua juventude. Seus dedos tinham dançado pelos palcos do mundo, arrancando aplausos que faziam tremer os lustres das casas de ópera. Mas a vida, sempre imprevisível, a afastara do palco. Primeiro, a morte do marido. Depois, a necessidade de criar os três filhos. E, por fim, as mãos que começaram a tremer com a idade.
Mesmo assim, o piano continuava ali. Não como um instrumento, mas como uma testemunha silenciosa de tudo o que vivera.
Certa manhã, ao abrir a janela para deixar o ar circular, Beatriz ouviu uma melodia. Suave, quase imperceptível. Parecia vir de longe, mas ao mesmo tempo, tão próxima que fez seu coração vacilar.
- "Não pode ser..."
Seguiu o som, hesitante, e encontrou-se na frente do piano. A melodia vinha dele. Mas era impossível. Sozinha, suas mãos nunca mais o haviam tocado. Beatriz olhou ao redor, tremendo, mas não encontrou ninguém.
Sentou-se no banquinho de veludo gasto e estendeu as mãos trêmulas. Não eram mais ágeis nem certeiras, mas as teclas pareciam esperar. Ao encostar nelas, sentiu um arrepio. A melodia a envolveu, como um abraço invisível. Era a mesma que compusera para seu marido, muitos anos antes, em uma noite em que dançaram pela última vez.
Fechou os olhos, e enquanto os dedos percorriam as teclas, as memórias vieram à tona. O sorriso dele. O perfume daquelas noites de verão. A risada das crianças correndo ao som do piano. Ela tocava, mas não era sozinha. Sentia uma presença. Como se alguém conduzisse suas mãos, arrancando da alma a melodia que pensara ter esquecido.
Quando terminou, lágrimas escorriam pelo rosto. O silêncio voltou à casa, mas o peito de Beatriz estava mais leve. Pela primeira vez em anos, sentiu-se em paz.
Naquela noite, seus filhos a encontraram dormindo no sofá ao lado do piano. O sorriso em seus lábios era sereno, mas ela já não respirava.
O piano continuou ali, intocado, como sempre. Mas dizem que, nas noites de vento, é possível ouvir uma melodia suave ecoando pela casa. Uma melodia que ninguém mais sabe tocar.
Silvia Marchiori Buss
Pertencia a Dona Beatriz, uma mulher de oitenta e poucos anos, que andava com passos curtos e a memória esburacada. Ela morava sozinha, e resistia à insistência dos filhos em vender o velho piano.
- "Este piano me conhece mais do que vocês", dizia, com um tom que calava qualquer resposta.
Beatriz fora uma pianista renomada em sua juventude. Seus dedos tinham dançado pelos palcos do mundo, arrancando aplausos que faziam tremer os lustres das casas de ópera. Mas a vida, sempre imprevisível, a afastara do palco. Primeiro, a morte do marido. Depois, a necessidade de criar os três filhos. E, por fim, as mãos que começaram a tremer com a idade.
Mesmo assim, o piano continuava ali. Não como um instrumento, mas como uma testemunha silenciosa de tudo o que vivera.
Certa manhã, ao abrir a janela para deixar o ar circular, Beatriz ouviu uma melodia. Suave, quase imperceptível. Parecia vir de longe, mas ao mesmo tempo, tão próxima que fez seu coração vacilar.
- "Não pode ser..."
Seguiu o som, hesitante, e encontrou-se na frente do piano. A melodia vinha dele. Mas era impossível. Sozinha, suas mãos nunca mais o haviam tocado. Beatriz olhou ao redor, tremendo, mas não encontrou ninguém.
Sentou-se no banquinho de veludo gasto e estendeu as mãos trêmulas. Não eram mais ágeis nem certeiras, mas as teclas pareciam esperar. Ao encostar nelas, sentiu um arrepio. A melodia a envolveu, como um abraço invisível. Era a mesma que compusera para seu marido, muitos anos antes, em uma noite em que dançaram pela última vez.
Fechou os olhos, e enquanto os dedos percorriam as teclas, as memórias vieram à tona. O sorriso dele. O perfume daquelas noites de verão. A risada das crianças correndo ao som do piano. Ela tocava, mas não era sozinha. Sentia uma presença. Como se alguém conduzisse suas mãos, arrancando da alma a melodia que pensara ter esquecido.
Quando terminou, lágrimas escorriam pelo rosto. O silêncio voltou à casa, mas o peito de Beatriz estava mais leve. Pela primeira vez em anos, sentiu-se em paz.
Naquela noite, seus filhos a encontraram dormindo no sofá ao lado do piano. O sorriso em seus lábios era sereno, mas ela já não respirava.
O piano continuou ali, intocado, como sempre. Mas dizem que, nas noites de vento, é possível ouvir uma melodia suave ecoando pela casa. Uma melodia que ninguém mais sabe tocar.
Silvia Marchiori Buss
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