Óculos, Celular e Carteira
Jorge era um homem pleno. Sua vida fluía como um rio em dias de primavera: tranquila, abundante e cheia de promessas. Empresário respeitado, pai amoroso, amigo generoso, ele carregava consigo um brilho que parecia contagiar todos ao seu redor. Nada em sua vida parecia pequeno ou insuficiente; cada detalhe fazia parte de uma construção sólida e cheia de propósito.
Naquela manhã de terça-feira, Jorge saiu de casa como de costume. Vestiu o terno impecável, ajeitou os óculos no rosto, colocou o celular no bolso do paletó e verificou rapidamente o conteúdo da carteira: um cartão de crédito, uma foto dos filhos ainda pequenos, alguns trocados e um recibo amassado de um jantar especial com sua esposa. Objetos banais, mas que, juntos, contavam parte da história de sua vida.
Quando o telefone tocou naquela tarde, anunciando o acidente, o mundo de sua família desabou. Não houve aviso, preparação ou despedida. A morte chegou como um ladrão: silenciosa e implacável, arrancando Jorge de seus dias prósperos e cheios de alegria. Restaram apenas os três objetos: os óculos, o celular e a carteira.
Eles estavam intactos sobre a mesa do necrotério, como se aguardassem, teimosamente, que ele voltasse para buscá-los.
Foi sua esposa quem teve a coragem de pegá-los. Sentou-se na poltrona da sala, com os três itens sobre o colo, e passou a examiná-los com os olhos cheios de lágrimas e um soluço preso na garganta. Os óculos, com as lentes ligeiramente arranhadas, ainda conservavam o formato do rosto que ela conhecia tão bem. O celular, sempre tão barulhento, agora estava mudo, carregando memórias em mensagens, fotos e lembretes. E a carteira, com o couro já gasto, parecia um relicário. Ali estava o Jorge do cotidiano, o homem de hábitos e pequenas manias, mais do que o empresário bem-sucedido ou o pai exemplar.
Ela abriu a carteira e encontrou a foto dos filhos. Ficou olhando para o sorriso das crianças de anos atrás, enquanto a vida fluía sem preocupação. Cada objeto contava uma parte daquilo que Jorge fora, daquilo que ele significava. E, ao mesmo tempo, revelava algo inquietante: Jorge, com toda a sua plenitude, agora cabia naqueles três objetos.
A pergunta a assombrou:
— O que somos, afinal? Somos as pessoas que amamos, as memórias que deixamos ou apenas os objetos acumulados ao longo do caminho?
A resposta não veio, mas o peso da ausência continuou ali, gritando entre os objetos silenciosos.
Com o passar dos dias, ela encontrou uma nova forma de encarar aqueles objetos. Os óculos passaram a repousar na estante, ao lado dos livros que Jorge tanto gostava. O celular foi desbloqueado pelos filhos, revelando piadas, lembretes amorosos e fotos da família que o tornavam vivo de novo, mesmo que apenas por instantes. E a carteira, com as fotos dos pequenos, foi colocada no criado-mudo, do lado dele da cama.
O vazio que Jorge deixou era o espaço entre a ausência e a memória, o sopro da existência que, mesmo interrompido, continuava vibrando em quem o amava. Mas, naquela noite, enquanto olhava os objetos iluminados pela luz do abajur, ela concluiu que, se somos tão pouco, esse pouco pode significar o mundo.
Silvia Marchiori Buss
Naquela manhã de terça-feira, Jorge saiu de casa como de costume. Vestiu o terno impecável, ajeitou os óculos no rosto, colocou o celular no bolso do paletó e verificou rapidamente o conteúdo da carteira: um cartão de crédito, uma foto dos filhos ainda pequenos, alguns trocados e um recibo amassado de um jantar especial com sua esposa. Objetos banais, mas que, juntos, contavam parte da história de sua vida.
Quando o telefone tocou naquela tarde, anunciando o acidente, o mundo de sua família desabou. Não houve aviso, preparação ou despedida. A morte chegou como um ladrão: silenciosa e implacável, arrancando Jorge de seus dias prósperos e cheios de alegria. Restaram apenas os três objetos: os óculos, o celular e a carteira.
Eles estavam intactos sobre a mesa do necrotério, como se aguardassem, teimosamente, que ele voltasse para buscá-los.
Foi sua esposa quem teve a coragem de pegá-los. Sentou-se na poltrona da sala, com os três itens sobre o colo, e passou a examiná-los com os olhos cheios de lágrimas e um soluço preso na garganta. Os óculos, com as lentes ligeiramente arranhadas, ainda conservavam o formato do rosto que ela conhecia tão bem. O celular, sempre tão barulhento, agora estava mudo, carregando memórias em mensagens, fotos e lembretes. E a carteira, com o couro já gasto, parecia um relicário. Ali estava o Jorge do cotidiano, o homem de hábitos e pequenas manias, mais do que o empresário bem-sucedido ou o pai exemplar.
Ela abriu a carteira e encontrou a foto dos filhos. Ficou olhando para o sorriso das crianças de anos atrás, enquanto a vida fluía sem preocupação. Cada objeto contava uma parte daquilo que Jorge fora, daquilo que ele significava. E, ao mesmo tempo, revelava algo inquietante: Jorge, com toda a sua plenitude, agora cabia naqueles três objetos.
A pergunta a assombrou:
— O que somos, afinal? Somos as pessoas que amamos, as memórias que deixamos ou apenas os objetos acumulados ao longo do caminho?
A resposta não veio, mas o peso da ausência continuou ali, gritando entre os objetos silenciosos.
Com o passar dos dias, ela encontrou uma nova forma de encarar aqueles objetos. Os óculos passaram a repousar na estante, ao lado dos livros que Jorge tanto gostava. O celular foi desbloqueado pelos filhos, revelando piadas, lembretes amorosos e fotos da família que o tornavam vivo de novo, mesmo que apenas por instantes. E a carteira, com as fotos dos pequenos, foi colocada no criado-mudo, do lado dele da cama.
O vazio que Jorge deixou era o espaço entre a ausência e a memória, o sopro da existência que, mesmo interrompido, continuava vibrando em quem o amava. Mas, naquela noite, enquanto olhava os objetos iluminados pela luz do abajur, ela concluiu que, se somos tão pouco, esse pouco pode significar o mundo.
Silvia Marchiori Buss
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