Poeira da Vida

Ele sentia o calor do sol em sua pele enquanto caminhava pelo campo, os pés descalços afundando na terra seca. O aroma da grama queimada pelo verão misturava-se ao das flores selvagens que resistiam teimosamente ao calor. Era como se cada passo o conectasse mais ao que restava do seu ser, como se a terra sugasse a vida por seus calcanhares.


No entanto, não era o campo que o fazia refletir sobre o tempo que lhe escapava. Eram suas mãos. Mãos que antes sustentaram o mundo- ou pelo menos a sua pequena parcela dele. Elas haviam construído, acariciado, lutado. Agora, observava como a pele se tornara fina e translúcida, revelando um mapa de veias e linhas que mais pareciam trilhas de uma jornada longa demais.

Ao longe, avistou uma árvore solitária, imponente, com galhos que pareciam braços erguidos ao céu em um pedido de clemência. Ele se aproximou devagar, sentindo o peso de cada ano sobre seus ombros. Quando chegou, sentou-se sob sua sombra, deixando o vento brincar com seus cabelos ralos. Era um lugar que conhecia bem; aquela árvore havia sido plantada por suas próprias mãos quando era jovem, um presente para marcar o nascimento de sua filha.

Tirou do bolso uma pequena caixa de madeira, antiga e gasta, mas cheia de lembranças. Dentro dela, havia pequenas relíquias: uma pétala seca de uma flor que colheu para sua esposa no dia em que a pediu em casamento, um botão de uma camisa que usara no dia em que sua filha deu os primeiros passos, um grão de areia de uma praia onde havia rido até o pôr do sol. Cada item parecia insignificante, mas juntos contavam uma história.

Ele fechou os olhos e apertou a caixa contra o peito. Era como se pudesse sentir o tempo escapando, escoando por entre seus dedos como areia fina. Não havia como segurá-lo. Por mais que tentasse, a vida insistia em fluir, sem pausa, sem pausa, sem piedade. O momento mais doloroso não era o fim, mas o processo de compreender que tudo o que amara e construíra estava além de seu controle.

Foi quando uma brisa fresca soprou, carregando o cheiro da terra molhada e das flores. Ele abriu os olhos e viu um par de mãos pequenas, frágeis, tocando as suas. Sua neta, com seus olhos brilhantes de curiosidade, sentara-se ao seu lado, segurando um punhado de folhas e flores.

- Vovô, olha o que eu fiz para ti. Disse ela, estendendo um colar improvisado de flores silvestres.

Ele sorriu, lágrimas escorrendo sem esforço. A vida não estava se esvaindo; estava se transformando. Tudo o que ele perdera estava ali, renascendo em pequenos gestos, nos olhos inocentes da menina. Ele colocou o colar em volta do pescoço e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu o peso de algo que não era tristeza, mas gratidão.

A vida sempre escaparia de suas mãos, era o curso natural. Mas enquanto houvesse outro par de mãos pequenas para segurar as suas, ele sabia que sua história continuaria.


Silvia Marchiori Buss

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