Tirando o soluço do peito
A primeira vez que ele a viu, ela penteava os cabelos na varanda de uma casa pintada de amarelo. A rua era modesta, mas quando ela sorria, parecia que até os paralelepípedos ganhavam vida. Foi naquele instante, sob a luz dourada de um pôr do sol, que Raul teve certeza: amaria Cecília para sempre. E assim foi.
Casaram-se jovens, enfrentaram as dificuldades típicas de quem começa a vida com mais sonhos do que certezas. Ele, dedicado ao ofício de marceneiro, transformava a madeira em arte. Ela, professora, moldava futuros nas salas de aula. Entre os dois, havia mais do que amor: havia parceria, respeito, e aquela cumplicidade que dispensa palavras.
Os anos passaram. Criaram filhos, ganharam netos e, com isso, muitas histórias. Já aposentados, decidiram que era hora de realizar o sonho de viajar juntos para a Europa. Paris, Roma, Lisboa... Cecília adorava Fernando Pessoa e dizia que precisava sentir o Tejo para entender seus versos.
O embarque foi uma festa. Cecília, com seus olhos ainda brilhantes, vestia um chapéu de palha que Raul achava a coisa mais charmosa do mundo. Ele a olhava como se fosse a primeira vez, encantado, enquanto ela lia o itinerário pela centésima. “Lisboa nos espera!”, dizia ela.
Mas a alegria durou pouco. No aeroporto de Lisboa, assim que desceram do avião, Cecília sentiu um mal-estar estranho. Tudo veio rápido demais: a tontura, a fraqueza nas pernas, o olhar confuso. Raul, desesperado, a segurou antes que ela caísse. O diagnóstico veio em poucas horas: um AVC. Cecília estava consciente, mas metade de seu corpo não a obedecia mais.
Os dias seguintes foram um borrão de hospitais, exames e médicos. Raul não saiu do lado dela, nem por um minuto. Segurava a mão que ainda se movia, falava sobre os netos, relembrava histórias. Ele era força pura diante dela, mas, de vez em quando, saía do quarto. E era nesses momentos que ele tirava o soluço do peito.
Raul encontrava um canto qualquer — um corredor vazio, um banco no jardim do hospital — e deixava o choro vir. Não era um pranto de desespero, mas um soluço profundo, que nascia da dor de vê-la assim, tão frágil, quando sempre fora sua fortaleza. Ele chorava silenciosamente, apertando o lenço contra o rosto, enquanto o mundo ao redor seguia em sua pressa. E então, com os olhos inchados, voltava para ela com um sorriso, como se nada tivesse acontecido.
Os médicos diziam que Cecília precisaria de reabilitação, talvez por meses. Raul cancelou o restante da viagem sem pestanejar. Lisboa seria seu lar temporário, porque onde Cecília estivesse, ele ficaria. Alugou um pequeno apartamento próximo ao hospital e aprendeu a cozinhar pratos simples, já que Cecília precisava de cuidados especiais. “
- “Raul, até sopa você faz agora?”, ela brincava, a voz ainda meio lenta, mas cheia de humor. E ele ria, feliz por vê-la reagir.
Os meses se passaram, e Cecília, aos poucos, foi recuperando parte dos movimentos. Nunca voltaria a ser como antes, mas isso não importava para Raul. O que importava era que ela estava ali, ao seu lado, com o mesmo olhar brilhante que o encantara na varanda da casa amarela.
Um dia, enquanto caminhavam devagar pelo calçadão à beira do Tejo, Cecília parou e segurou o braço dele.
- “Raul, você acha que eu ainda sou bonita?”, perguntou, com a voz embargada. Ele sorriu, tirando o chapéu que ela insistia em usar desde a chegada.
-“Você é a mulher mais bonita do mundo, Cecília. Sempre foi. Sempre será.”
Ela sorriu, e ele soube que era um sorriso de verdade. À noite, enquanto ela dormia, Raul se levantou e foi até a varanda do apartamento. Olhou para o céu estrelado e, mais uma vez, tirou o soluço do peito. Chorou por tudo o que viveram, por tudo o que perderam, mas também pelo amor que permanecia intacto, mesmo diante de tantas tempestades.
Na manhã seguinte, ele acordou antes dela e preparou o café. “
- “Lisboa ainda nos espera, Cecília”, disse, com o mesmo brilho nos olhos que tinha quando a viu pela primeira vez. E, juntos, voltaram a sonhar, porque o amor deles era assim: persistente, teimoso, eterno.
E sempre que o soluço apertava o peito de Raul, ele o deixava sair, porque sabia que as lágrimas eram apenas a forma mais sincera de agradecer por ela ainda estar ali, com ele.
Casaram-se jovens, enfrentaram as dificuldades típicas de quem começa a vida com mais sonhos do que certezas. Ele, dedicado ao ofício de marceneiro, transformava a madeira em arte. Ela, professora, moldava futuros nas salas de aula. Entre os dois, havia mais do que amor: havia parceria, respeito, e aquela cumplicidade que dispensa palavras.
Os anos passaram. Criaram filhos, ganharam netos e, com isso, muitas histórias. Já aposentados, decidiram que era hora de realizar o sonho de viajar juntos para a Europa. Paris, Roma, Lisboa... Cecília adorava Fernando Pessoa e dizia que precisava sentir o Tejo para entender seus versos.
O embarque foi uma festa. Cecília, com seus olhos ainda brilhantes, vestia um chapéu de palha que Raul achava a coisa mais charmosa do mundo. Ele a olhava como se fosse a primeira vez, encantado, enquanto ela lia o itinerário pela centésima. “Lisboa nos espera!”, dizia ela.
Mas a alegria durou pouco. No aeroporto de Lisboa, assim que desceram do avião, Cecília sentiu um mal-estar estranho. Tudo veio rápido demais: a tontura, a fraqueza nas pernas, o olhar confuso. Raul, desesperado, a segurou antes que ela caísse. O diagnóstico veio em poucas horas: um AVC. Cecília estava consciente, mas metade de seu corpo não a obedecia mais.
Os dias seguintes foram um borrão de hospitais, exames e médicos. Raul não saiu do lado dela, nem por um minuto. Segurava a mão que ainda se movia, falava sobre os netos, relembrava histórias. Ele era força pura diante dela, mas, de vez em quando, saía do quarto. E era nesses momentos que ele tirava o soluço do peito.
Raul encontrava um canto qualquer — um corredor vazio, um banco no jardim do hospital — e deixava o choro vir. Não era um pranto de desespero, mas um soluço profundo, que nascia da dor de vê-la assim, tão frágil, quando sempre fora sua fortaleza. Ele chorava silenciosamente, apertando o lenço contra o rosto, enquanto o mundo ao redor seguia em sua pressa. E então, com os olhos inchados, voltava para ela com um sorriso, como se nada tivesse acontecido.
Os médicos diziam que Cecília precisaria de reabilitação, talvez por meses. Raul cancelou o restante da viagem sem pestanejar. Lisboa seria seu lar temporário, porque onde Cecília estivesse, ele ficaria. Alugou um pequeno apartamento próximo ao hospital e aprendeu a cozinhar pratos simples, já que Cecília precisava de cuidados especiais. “
- “Raul, até sopa você faz agora?”, ela brincava, a voz ainda meio lenta, mas cheia de humor. E ele ria, feliz por vê-la reagir.
Os meses se passaram, e Cecília, aos poucos, foi recuperando parte dos movimentos. Nunca voltaria a ser como antes, mas isso não importava para Raul. O que importava era que ela estava ali, ao seu lado, com o mesmo olhar brilhante que o encantara na varanda da casa amarela.
Um dia, enquanto caminhavam devagar pelo calçadão à beira do Tejo, Cecília parou e segurou o braço dele.
- “Raul, você acha que eu ainda sou bonita?”, perguntou, com a voz embargada. Ele sorriu, tirando o chapéu que ela insistia em usar desde a chegada.
-“Você é a mulher mais bonita do mundo, Cecília. Sempre foi. Sempre será.”
Ela sorriu, e ele soube que era um sorriso de verdade. À noite, enquanto ela dormia, Raul se levantou e foi até a varanda do apartamento. Olhou para o céu estrelado e, mais uma vez, tirou o soluço do peito. Chorou por tudo o que viveram, por tudo o que perderam, mas também pelo amor que permanecia intacto, mesmo diante de tantas tempestades.
Na manhã seguinte, ele acordou antes dela e preparou o café. “
- “Lisboa ainda nos espera, Cecília”, disse, com o mesmo brilho nos olhos que tinha quando a viu pela primeira vez. E, juntos, voltaram a sonhar, porque o amor deles era assim: persistente, teimoso, eterno.
E sempre que o soluço apertava o peito de Raul, ele o deixava sair, porque sabia que as lágrimas eram apenas a forma mais sincera de agradecer por ela ainda estar ali, com ele.

Comentários
Postar um comentário