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A casa dos espelhos

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A casa de Dona Heloísa e Seu Arnaldo era uma espécie de palco onde as vidas se entrelaçavam em uma dança constante, silenciosa e, ao mesmo tempo, cheia de significados. A casa era ampla, antiga, cheia de móveis robustos e corredores que ecoavam os passos e as vozes de quem ali morava. Cada canto parecia guardar memórias, histórias de gerações que se sucederam e deixaram suas marcas. Moravam ali seis pessoas, cada uma vivendo sua própria trama, mas unidas por uma ligação invisível, como se cada um fosse uma peça importante em uma obra de teatro que se desenrolava naqueles cômodos. Dona Heloísa e Seu Arnaldo eram os pilares da família. Ele, um contador aposentado de fala mansa, sempre tinha uma palavra amiga ou uma lembrança de seus tempos de juventude, narrada em voz baixa para quem quisesse ouvir. Dona Heloísa, com sua energia inquieta, comandava a casa com precisão, cheia de afetos e modos, mas sempre certa de que cada detalhe da rotina tinha seu papel no espetáculo da vida. No quarto...

O piloto

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Horácio, português de Lisboa, tinha quarenta anos e uma vida sólida e estruturada como piloto de avião em rotas internacionais. Seu destino era, frequentemente, o Brasil e os Estados Unidos, mais precisamente o Rio de Janeiro e Nova York. Ele nunca saberia dizer qual dos dois países preferia; para ele, os dois eram diferentes, mas se completavam. Viver nos ares lhe trazia uma adrenalina que o fazia sentir-se verdadeiramente vivo. Caroline, sua esposa americana, era aeromoça na mesma companhia aérea em que ele trabalhava, e foi em pleno voo que se encontraram pela primeira vez. Desde aquela viagem, Horácio se apaixonou. Os dois viveram um romance intenso, quase de conto de fadas, entre as nuvens, sob o céu mais azul que se possa imaginar. Tudo parecia perfeito. Caroline era uma bela mulher, e juntos formavam um belo casal. Decidiram fixar residência em Nova York, ponto de chegada e partida para Horácio. Carol, como ele a chamava carinhosamente, deixou o emprego assim que o primeiro filh...

Posso levar o chão?

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Era uma menina linda, com olhos que pareciam conter toda a luz de um dia ensolarado e um sorriso tímido que revelava um mundo de sonhos e descobertas. Mas, por trás daquela beleza tão delicada, havia marcas que o tempo e as perdas haviam deixado. Perdera cedo os avós, figuras que lhe ofereciam um amor manso, aquele carinho que só os mais velhos sabem dar. E agora, enfrentava o vazio de outra ausência. O garoto era especial, um amigo que, aos poucos, se tornara mais. Nos momentos compartilhados, a amizade fluía e, sutilmente, um amor doce e juvenil brotava entre os dois. Ela sentia o coração acelerar quando ele estava por perto, e bastava um olhar para que as palavras se tornassem desnecessárias. Ele a fazia rir, lembrando-a de que a vida, apesar das perdas, ainda tinha uma beleza pulsante. Mas, então, num instante de caos que só o acaso pode criar, ele se foi. Um acidente de trânsito cruel e inesperado interrompeu o fio de suas vidas, levando-o para longe dela antes que tivessem a chan...

As gotas da vida

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Dona Amélia entrou na farmácia com passos lentos, mas decididos. Vestia um casaco bem alinhado e segurava a bolsa com cuidado, como se dentro dela estivesse seu maior tesouro. Seu olhar buscava, entre as prateleiras, a segurança de uma rotina que há tempos havia aprendido a manter: uma ida semanal à farmácia para buscar as “gotas da vida”, o remédio que tomava para afastar a tristeza e suportar as longas noites solitárias. Atrás do balcão, o jovem farmacêutico Marcos a reconheceu de imediato e lhe ofereceu um sorriso caloroso. — Boa tarde, Dona Amélia! O que a senhora precisa hoje? Ela parou, suspirou profundamente e olhou para ele com um ar quase resignado. — Estou aqui para buscar meu remédio. As “gotas da vida”, sabe? Marcos assentiu, mas notou o leve tremor em suas mãos enquanto ela mexia na bolsa, buscando a receita. Depois de alguns instantes de busca, Dona Amélia olhou para ele com uma expressão de embaraço. — Ai, meu Deus... devo ter deixado a receita em casa. E agora? Não poss...

A Moça do Nariz Errado

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Nicinha era toda pequenininha: media pouco mais de um metro e meio, pesava míseros quarenta quilos, tinha boca e olhos miúdos, mas o nariz… Ah, esse era grande demais, e parecia estar no lugar errado. Chamava a atenção de todos, não tinha como passar despercebido.  A mãe de Nicinha não entendia como aquela criança tão pequena podia ter um nariz tão grande. Não era coisa de família, pois seus dois irmãos tinham até narizes arrebitados. Belos narizes tinham os meninos. Nicinha sofria todo tipo de gozação, era chamada de Pinóquio, nariguda e até de bruxa. Apelidos não faltavam; pensando bem, Nicinha fazia jus a todos eles. Enquanto pequena, não entendia, tampouco se importava com a forma pela qual as pessoas olhavam para ela, principalmente para seu nariz. Na adolescência, o nariz começou a lhe incomodar; era atrevido e parecia chegar aos lugares antes dela. Além de grande e atrevido, o nariz era dotado de duas aberturas enormes, como duas cavernas misteriosas. Como toda jovem, Nicinh...

Solano e Simone

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Simone abriu a gaveta da antiga cômoda do quarto, que havia deixado intocada há muito tempo. Leu e releu o diário onde registrava, como uma verdadeira novela, os episódios de sua vida. Cada página a levava de volta àquela triste tarde chuvosa em que, acidentalmente, disparara o tiro em Solano, seu companheiro, que desde então ficara paraplégico. Pensativa, sentou-se no parapeito da janela, contemplando a paisagem que, durante tanto tempo, fora sua única companhia. Seus olhos percorreram o local com ansiedade; precisava encontrar quem viera ver. Finalmente, seus olhos esverdeados se fixaram em Solano, sentado debaixo da árvore onde um coração com os nomes dos dois havia sido gravado, como uma promessa de amor eterno. Ela encontrou Solano um pouco mais envelhecido, mas com o mesmo olhar sereno de sempre. Ao perceber que os olhares se cruzavam, sentiu uma onda de emoção e nostalgia lhe invadir o peito. Era como se, mesmo depois de tantos anos, aquele olhar fosse capaz de atravessar todas ...

A grande notícia

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A família de Dona Jandira estava reunida em volta da mesa de jantar quando o famoso plim-plim da TV ecoou pela sala, atraindo a atenção de todos para o “amigo de todo dia”. Os cinco, boquiabertos, ouviram a notícia que parecia uma sentença de morte: “Um meteoro de grandes proporções aproxima-se da Terra em alta velocidade. O impacto levará o planeta ao extermínio...” As cabeças se viraram de volta à mesa, e o choque inicial deu lugar a uma estranha sensação de alívio. A ideia de morrer ao lado de quem eles secretamente preferiam não ver por perto trouxe à tona um sarcasmo que ninguém disfarçou. Dona Jandira, que durante anos havia lutado para manter a "unidade familiar" com as melhores intenções, agora via seu esforço ir por água abaixo. Pensou na ironia de morrer cercada pelas confissões que jamais pensou ouvir. — E eu? — começou Teresa, a caçula, já sem a expressão de “santinha” que usava tão bem. — Vou morrer virgem? Que desperdício! Por que não fiquei com o primo na festa...