A Moça do Nariz Errado

Nicinha era toda pequenininha: media pouco mais de um metro e meio, pesava míseros quarenta quilos, tinha boca e olhos miúdos, mas o nariz… Ah, esse era grande demais, e parecia estar no lugar errado. Chamava a atenção de todos, não tinha como passar despercebido. 

A mãe de Nicinha não entendia como aquela criança tão pequena podia ter um nariz tão grande. Não era coisa de família, pois seus dois irmãos tinham até narizes arrebitados. Belos narizes tinham os meninos.

Nicinha sofria todo tipo de gozação, era chamada de Pinóquio, nariguda e até de bruxa. Apelidos não faltavam; pensando bem, Nicinha fazia jus a todos eles. Enquanto pequena, não entendia, tampouco se importava com a forma pela qual as pessoas olhavam para ela, principalmente para seu nariz. Na adolescência, o nariz começou a lhe incomodar; era atrevido e parecia chegar aos lugares antes dela. Além de grande e atrevido, o nariz era dotado de duas aberturas enormes, como duas cavernas misteriosas.

Como toda jovem, Nicinha gostaria de namorar para beijar, era fascinada por beijos, e o selinho era o que mais lhe agradava. Achava simpático, boca com boca, sem língua no meio. Costumava treinar no espelho, mas só conseguia alcançar sua boca de lado; o selinho não era para ela, pois o nariz ficava no meio. Os meninos nem se atreviam; por mais que ela quisesse, alguns até chegaram perto, mas, na hora H, desistiam. Quem sabe o que se esconde dentro dessas escuras cavernas? Diziam que ela deveria pagar um imposto maior pelo tanto de oxigênio que consumia — o que, hoje, é um produto raro. Isso a deixava muito triste.

Decidida a resolver seu problema, consultou um médico. Primeiro, foi a um otorrinolaringologista, que olhou, analisou, examinou e, apavorado com o tamanho do nariz da menina, sugeriu um cirurgião plástico. O caso não era de sua competência.

Partiu, então, a menina para mais uma jornada. Demorou um tempo até conseguir uma consulta com seu “salvador”, o cirurgião plástico.

Chegado o tão esperado dia, a menina acordou mais cedo que o normal e, ansiosa, nem tomou café. No consultório, Nicinha ouviu do médico que precisaria de, no mínimo, três a quatro cirurgias para corrigir seu nariz. Ela não se importava; aguentaria qualquer sofrimento para poder namorar e beijar, beijo de selinho.

Porém, sempre há um “porém”: o Sistema Único de Saúde não realizava esse tipo de cirurgia estética, afinal, seu nariz era grande, mas não trazia problemas de saúde. Cirurgia só particular. Fizeram contas e mais contas, até que desistiram. A menina continuaria com o nariz “errado”.

Nicinha passava horas do dia pedalando sua bicicleta, seu único prazer. Conhecia todos os lugares pela redondeza; sentia todos os cheiros que ninguém seria capaz de sentir. Nicinha já estava se acostumando à solidão; assistia à vida dos outros pedalando sua bike. Preferia a solidão à humilhação de ser analisada e ser o centro das atenções por causa de seu nariz e das cavernas escuras que ele possuía.

Certa tarde, debaixo de um forte sol, a menina desceu uma colina, a mais alta da região; os pneus de sua bike derraparam no cascalho, ela tentou frear, mas foi pior. Derrapou e foi de cara — ou melhor, de nariz — contra um muro de pedra. Acordou no hospital e sentiu seu nariz esfacelado; o coitado tinha chegado primeiro no muro. Foi sua salvação.

Na maca, sendo levada para o bloco cirúrgico, pensou que tivera sorte; agora poderia dar um jeito em seu nariz “errado” e, finalmente, provaria o beijo de selinho, sem ninguém atravessado em seu caminho.




Silvia Marchiori Buss

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