A grande notícia
A família de Dona Jandira estava reunida em volta da mesa de jantar quando o famoso plim-plim da TV ecoou pela sala, atraindo a atenção de todos para o “amigo de todo dia”. Os cinco, boquiabertos, ouviram a notícia que parecia uma sentença de morte: “Um meteoro de grandes proporções aproxima-se da Terra em alta velocidade. O impacto levará o planeta ao extermínio...”
As cabeças se viraram de volta à mesa, e o choque inicial deu lugar a uma estranha sensação de alívio. A ideia de morrer ao lado de quem eles secretamente preferiam não ver por perto trouxe à tona um sarcasmo que ninguém disfarçou. Dona Jandira, que durante anos havia lutado para manter a "unidade familiar" com as melhores intenções, agora via seu esforço ir por água abaixo. Pensou na ironia de morrer cercada pelas confissões que jamais pensou ouvir.
— E eu? — começou Teresa, a caçula, já sem a expressão de “santinha” que usava tão bem. — Vou morrer virgem? Que desperdício! Por que não fiquei com o primo na festa de fim de ano? Pelo menos morreria como a Juraci... feliz!
Juraci, a mais velha, soltou uma risada debochada enquanto acendia um cigarrinho, completamente alheia ao absurdo de tudo:
— Agora não tem jeito! Eu te avisei que esse teu jeitinho de santa só ia te atrasar. Olha no que deu... o planeta acabando, e você sem saber o que é um homem.
Joel, o “varão” da família, balançava a cabeça em reprovação, mas aproveitou o momento para fazer sua ligação: chamou o amigo Luciano, o verdadeiro amor de sua vida, convidando-o a estar com ele naquele momento final. Sem hesitar, mandou-lhe a localização e, com a voz trêmula, disse:
— Vem pra cá... quero que a gente fique junto.
Dona Jandira levantou-se da mesa e, sem cerimônia, foi até a cozinha para telefonar para o padeiro da esquina. O que ninguém sabia era que ele poderia ser o verdadeiro pai de Joel. Entre soluços, murmurou ao telefone:
— Sei que parece estranho, mas... será que você poderia passar aqui? Quero que ele te conheça... antes do fim.
Seu Carlos, o patriarca da casa, assistia à cena com um turbilhão de emoções. Sentia-se completamente traído, como se sua vida até então tivesse sido uma mentira. Olhava para a esposa, a "fiel" Dona Jandira, e se perguntava como havia sido enganado por todos, inclusive por ela. Cada nova confissão era como um golpe, e a cabeça latejava de dor. Com o rosto pálido, apoiou-se à mesa, preferindo que o fim chegasse antes que precisasse escutar mais.
Outro plim-plim irrompeu no silêncio que dominava a sala. Todos, menos Seu Carlos, voltaram-se para a TV, em busca de mais notícias sobre o meteoro. A voz sedutora do locutor fez ecoar as palavras que ninguém esperava ouvir:
— Atenção, uma atualização importante: o meteoro, como por um milagre, alterou sua rota. A Terra está a salvo.
Um silêncio desconfortável tomou conta da sala. Ninguém ousava sequer respirar, conscientes de que tudo o que haviam dito não poderia ser desfeito. Dona Jandira, agora sem ter como escapar da situação, tentou juntar os cacos da "unidade familiar" que tanto prezava:
— Bem... talvez devêssemos deixar essas "revelações" para outro momento, não é? O importante é que estamos vivos... juntos.
Juraci soltou uma risada amarga:
— “Juntos”, mãe? Depois do que ouvimos? Essa sua “unidade familiar” só tava unida por causa do meteoro. Agora que ele não vai cair, as máscaras já estão no chão!
Seu Carlos, que assistia em silêncio ao desconforto crescente, suspirou profundamente. Percebendo o silêncio repentino e o desconcerto de todos, murmurou, com uma pitada de sarcasmo:
— Xi... Acho que vou mesmo preferir continuar surdo. Afinal, o verdadeiro meteoro já tá dentro dessa casa.
Silvia Marchiroi Buss
As cabeças se viraram de volta à mesa, e o choque inicial deu lugar a uma estranha sensação de alívio. A ideia de morrer ao lado de quem eles secretamente preferiam não ver por perto trouxe à tona um sarcasmo que ninguém disfarçou. Dona Jandira, que durante anos havia lutado para manter a "unidade familiar" com as melhores intenções, agora via seu esforço ir por água abaixo. Pensou na ironia de morrer cercada pelas confissões que jamais pensou ouvir.
— E eu? — começou Teresa, a caçula, já sem a expressão de “santinha” que usava tão bem. — Vou morrer virgem? Que desperdício! Por que não fiquei com o primo na festa de fim de ano? Pelo menos morreria como a Juraci... feliz!
Juraci, a mais velha, soltou uma risada debochada enquanto acendia um cigarrinho, completamente alheia ao absurdo de tudo:
— Agora não tem jeito! Eu te avisei que esse teu jeitinho de santa só ia te atrasar. Olha no que deu... o planeta acabando, e você sem saber o que é um homem.
Joel, o “varão” da família, balançava a cabeça em reprovação, mas aproveitou o momento para fazer sua ligação: chamou o amigo Luciano, o verdadeiro amor de sua vida, convidando-o a estar com ele naquele momento final. Sem hesitar, mandou-lhe a localização e, com a voz trêmula, disse:
— Vem pra cá... quero que a gente fique junto.
Dona Jandira levantou-se da mesa e, sem cerimônia, foi até a cozinha para telefonar para o padeiro da esquina. O que ninguém sabia era que ele poderia ser o verdadeiro pai de Joel. Entre soluços, murmurou ao telefone:
— Sei que parece estranho, mas... será que você poderia passar aqui? Quero que ele te conheça... antes do fim.
Seu Carlos, o patriarca da casa, assistia à cena com um turbilhão de emoções. Sentia-se completamente traído, como se sua vida até então tivesse sido uma mentira. Olhava para a esposa, a "fiel" Dona Jandira, e se perguntava como havia sido enganado por todos, inclusive por ela. Cada nova confissão era como um golpe, e a cabeça latejava de dor. Com o rosto pálido, apoiou-se à mesa, preferindo que o fim chegasse antes que precisasse escutar mais.
Outro plim-plim irrompeu no silêncio que dominava a sala. Todos, menos Seu Carlos, voltaram-se para a TV, em busca de mais notícias sobre o meteoro. A voz sedutora do locutor fez ecoar as palavras que ninguém esperava ouvir:
— Atenção, uma atualização importante: o meteoro, como por um milagre, alterou sua rota. A Terra está a salvo.
Um silêncio desconfortável tomou conta da sala. Ninguém ousava sequer respirar, conscientes de que tudo o que haviam dito não poderia ser desfeito. Dona Jandira, agora sem ter como escapar da situação, tentou juntar os cacos da "unidade familiar" que tanto prezava:
— Bem... talvez devêssemos deixar essas "revelações" para outro momento, não é? O importante é que estamos vivos... juntos.
Juraci soltou uma risada amarga:
— “Juntos”, mãe? Depois do que ouvimos? Essa sua “unidade familiar” só tava unida por causa do meteoro. Agora que ele não vai cair, as máscaras já estão no chão!
Seu Carlos, que assistia em silêncio ao desconforto crescente, suspirou profundamente. Percebendo o silêncio repentino e o desconcerto de todos, murmurou, com uma pitada de sarcasmo:
— Xi... Acho que vou mesmo preferir continuar surdo. Afinal, o verdadeiro meteoro já tá dentro dessa casa.
Silvia Marchiroi Buss

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