Solano e Simone

Simone abriu a gaveta da antiga cômoda do quarto, que havia deixado intocada há muito tempo. Leu e releu o diário onde registrava, como uma verdadeira novela, os episódios de sua vida. Cada página a levava de volta àquela triste tarde chuvosa em que, acidentalmente, disparara o tiro em Solano, seu companheiro, que desde então ficara paraplégico.

Pensativa, sentou-se no parapeito da janela, contemplando a paisagem que, durante tanto tempo, fora sua única companhia. Seus olhos percorreram o local com ansiedade; precisava encontrar quem viera ver. Finalmente, seus olhos esverdeados se fixaram em Solano, sentado debaixo da árvore onde um coração com os nomes dos dois havia sido gravado, como uma promessa de amor eterno.

Ela encontrou Solano um pouco mais envelhecido, mas com o mesmo olhar sereno de sempre. Ao perceber que os olhares se cruzavam, sentiu uma onda de emoção e nostalgia lhe invadir o peito. Era como se, mesmo depois de tantos anos, aquele olhar fosse capaz de atravessar todas as barreiras de tempo e culpa que os separavam.

Simone levantou-se e desceu lentamente as escadarias da mansão, cada passo pesando como um fardo antigo. Ao se aproximar de Solano, percebeu que ele não parecia surpreendido com sua presença, como se sempre a esperasse ali, naquele mesmo lugar. Sentou-se ao seu lado, sob a sombra da árvore que guardava as juras de amor, e suspirou profundamente.

O silêncio entre os dois era denso, carregado de tudo o que não havia sido dito ao longo dos anos. Simone, com um nó na garganta, sentia que palavras não seriam suficientes para expressar tudo o que guardava no coração. Ao mesmo tempo, compreendia que ele entendia cada sentimento que trazia consigo. Solano lhe lançou um leve sorriso, como que para lhe dizer que a culpa e o arrependimento não eram necessários, pois ele a perdoara há muito tempo.

— Sabe, Solano... Começou ela, com a voz trêmula. 

— Eu nunca realmente deixei este lugar. Nem a você.

Solano assentiu, segurando sua mão com firmeza, mas sem dizer uma palavra. Ele sempre soubera, no fundo, que o coração dela jamais saíra dali. Ela sentiu que, de alguma forma, ele era o alicerce que sempre a mantivera conectada ao que realmente importava.

Enquanto o vento suave balançava as folhas da árvore, um sentimento de paz envolveu os dois. Simone percebeu, com clareza, que o que tanto procurava não era o perdão de Solano, mas o seu próprio. E ao lado dele, sob aquela árvore e sob aquele olhar sereno que a acolhia, ela se permitiu perdoar-se.

Simone e Solano ficaram ali, juntos, num silêncio cheio de significados, deixando o passado finalmente se dissolver.



Silvia Marchiori Buss

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