Vivendo Em Sonhos Aleatórios
Tenho sonhado com coisas
que não fazem sentido quando acordo. Lugares onde nunca estive, pessoas que não
sei de onde vieram, conversas que parecem importantes enquanto duram e que
desaparecem quase por inteiro quando abro os olhos.
Às vezes, sonho que estou
viajando. Levo uma bolsa pequena, caminho por ruas desconhecidas e tenho a
impressão de que alguém me espera em algum lugar. Não sei quem é, nem onde devo
chegar. Sigo andando, tranquila, com aquela estranha certeza que só os sonhos
conseguem oferecer.
Em outras noites, volto a
casas antigas. Algumas existem apenas na minha memória. Outras parecem ter sido
inventadas durante o sono. Abro portas, mexo em gavetas, encontro fotografias
sem rostos e objetos que reconheço sem nunca os ter visto. Há sempre alguma
coisa familiar naquele desconhecido.
O mais curioso é que,
dentro dos sonhos, não costumo fazer perguntas. Aceito que uma rua termine
dentro de um quarto, que o mar apareça atrás de uma janela ou que alguém
distante sente à minha mesa e continue uma conversa interrompida há muitos
anos.
A lógica fica do lado de
fora, esperando que eu acorde.
Tenho pensado que os sonhos
são uma espécie de visitação daquilo que não conseguimos organizar durante o
dia. A memória abre suas gavetas sem autorização, mistura o que vivemos com o
que desejamos, aproxima pessoas, inventa encontros. Talvez a noite seja o único
lugar onde tudo isso possa acontecer sem precisar de explicação.
Há sonhos dos quais acordo
sorrindo. Outros deixam uma saudade difícil de contar. Passo algum tempo na
cama, tentando recuperar uma palavra, um rosto, o som de uma voz. Sei que, se
me levantar depressa, tudo vai escapar. Fico quieta, procurando segurar os
últimos pedaços daquela história, mas os sonhos têm pouca paciência com quem
quer levá-los para a vida desperta.
Guardo apenas fragmentos.
Uma escada. Um abraço. Uma
paisagem azul. Alguém que segura minha mão.
Esse último detalhe
permanece comigo por mais tempo. Talvez porque existam gestos que a gente
reconhece antes mesmo de compreender o que significam.
Durante o dia, sou bastante
prática. Tenho compromissos, resolvo problemas, faço planos, presto atenção às
coisas que precisam ser feitas. A vida exige essa organização, e eu aprendi a
conviver com ela. Mas, quando durmo, alguma coisa se solta. Posso estar em
qualquer lugar, encontrar qualquer pessoa, viver uma história que não caberia
em nenhuma explicação razoável.
E gosto disso.
Não preciso decidir se os
sonhos são lembranças, desejos ou apenas o trabalho misterioso de uma mente que
continua ativa enquanto o corpo descansa. Também não preciso procurar mensagens
escondidas em cada imagem. Há coisas que podem existir sem que a gente saiba
exatamente por quê.
O que me intriga é a
sensação que fica. Às vezes, acordo com uma alegria que não tem endereço.
Outras vezes, carrego uma tristeza que não consigo relacionar a nada do dia
anterior. Tomo café, olho pela janela, começo minhas tarefas. Aos poucos,
aquela emoção se mistura às outras, mas não desaparece completamente.
Talvez os sonhos deixem
pequenas marcas, dessas que não aparecem no espelho e nem precisam ser
explicadas a ninguém.
Tenho vivido assim, entre
os acontecimentos reais e essas histórias que me visitam durante a noite. Em
algumas, sou mais jovem. Em outras, tenho a idade que tenho, conheço minhas
limitações e caminho sem pressa. Há noites em que procuro alguém. Em outras,
simplesmente passeio por lugares que não existem.
Nem sempre me lembro do
final.
Aliás, pensando bem, quase
nunca me lembro.
E pode ser que eu prefira
assim. Certas histórias perdem alguma coisa quando chegam ao fim, quando todas
as perguntas encontram respostas e cada personagem recebe seu destino. Nos
sonhos, as portas continuam abertas. Posso voltar a um lugar que nunca existiu,
reencontrar alguém que não sei de onde veio e continuar uma conversa cujo
assunto esqueci.
Hoje, antes de dormir, não
vou pedir nenhum sonho especial. Não quero escolher o cenário, o caminho ou as
pessoas que estarão comigo. Deixo a noite cuidar disso.
Quem sabe eu viaje. Quem
sabe encontre uma casa com janelas abertas, um jardim antigo ou uma rua que
termine à beira do mar.
Quem sabe alguém me espere.
Amanhã, se eu acordar com
alguma lembrança, tentarei guardá-la. Se não me lembrar de nada, também está
bem.
A noite terá sido minha,
mesmo que eu não consiga contar o que aconteceu nela.
E sigo vivendo, acordada e
adormecida, entre aquilo que conheço e aquilo que nem sei que procuro. Há dias
em que a realidade me surpreende. Em outros, são os sonhos que me levam para
longe.
No fundo, gosto dessa
possibilidade de partir sem fazer as malas, de encontrar sem marcar hora, de
estar em lugares onde nunca estive e sentir saudade de coisas que talvez nem
tenham existido.
Amanhã será outro dia.
E, quando a noite chegar,
haverá novamente um mundo inteiro esperando atrás dos meus olhos fechados.
Silvia Marchiori Buss
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