As Bruxas Estão Soltas...
As Bruxas Estão Soltas – parte I
Quatro mulheres. Quatro rotinas. Quatro feitiços contra o tédio. E um encontro que ninguém esperava.
Dizem que as bruxas estão soltas quando algo foge ao controle. Quando os dias ganham cheiro de mudança e a realidade, trincada por dentro, começa a ceder espaço ao improvável. Pois bem — elas estão.
Não as bruxas das histórias infantis, mas aquelas mulheres que, sem estardalhaço, cansaram de esperar por um sinal externo. E resolveram ser o próprio feitiço.
Clarice, aos cinquenta e dois, vive um casamento arrastado, sem grandes brigas nem grandes beijos. Vive no meio — do caminho, do afeto, do que esperava ser amor. Há vinte e cinco anos dorme ao lado do mesmo homem, com quem aprendeu a dividir boletos, filhos e silêncios.
Mas nas últimas semanas, um tremor leve, quase imperceptível, começava a agitar-lhe o peito. Um incômodo surdo, como uma lembrança sem forma.
Foi numa segunda-feira, diante da décima reunião da semana, que disse: “Não posso ficar até mais tarde.”
Desligou o computador às 17h59, como quem desarma uma bomba, e saiu.
Parou em frente ao velho cinema de rua, o mesmo onde, aos 19 anos, fora com um colega da faculdade. Um beijo tímido no escuro, pipoca dividida, e uma promessa de viagem que nunca aconteceu.
Entrou sozinha. Assistiu a um filme sobre recomeços. Chorou sem alarde. Ao sair, percebeu: talvez ainda houvesse tempo. Para ela. Não para a Clarice mãe, esposa ou gerente — mas para a mulher que, um dia, sonhou com algo que não sabia nomear.
Jandira, quarenta e quatro, gerente de um supermercado de bairro, aprendeu cedo a engolir o choro. Criada pela tia-avó depois que a mãe foi embora, criou dois filhos quase sozinha. Nunca houve tempo para muita coisa — apenas o necessário.
Casou-se aos vinte e um, separou-se aos trinta e seis, mas ainda divide o mesmo teto com o ex-marido, agora mais amigo do que qualquer outra coisa.
Acorda antes do sol, não por hábito, mas por necessidade de estar só.
Primeiro, caminhava para perder peso. Depois, para perder o medo.
Foi numa dessas madrugadas que passou pela praça e, num impulso, começou a dançar ao som do próprio fone. Ali, com o corpo suado e livre, lembrou de Amarildo — o único homem com quem dançou colada num forró, de olhos fechados.
Ele foi embora para o norte do país e prometeu voltar. Não voltou. Mas naquele passo solto, sentiu que o corpo ainda lembrava. E isso bastava por ora.
Lúcia, sessenta e oito anos, viúva há mais de uma década, foi professora de literatura. Aposentada, avó de três, vive numa casa onde tudo tem lugar — menos ela mesma.
Quando o marido morreu, jurou que nunca mais se abriria para ninguém. Não por falta de pretendentes (houve um ou outro), mas por cansaço de ensinar o próprio caminho para mãos que não sabiam tocar.
Há anos vive no automático, distribuindo conselhos, fazendo bolos, organizando aniversários, escondendo saudades.
Até que, a pedido da neta mais nova, foi a uma oficina de escrita na biblioteca do bairro.
Naquele dia, escreveu uma carta. Endereçada à jovem que fora — ousada, rebelde, cheia de fome do mundo.
Na última linha, escreveu: “Desculpa ter esquecido de você.”
Guardou a carta na carteira. Às vezes a lê no ônibus, antes de dormir ou quando sente que está murchando demais.
Ali dentro, ainda mora a mulher que um dia amou um poeta sem futuro, que quis fugir para Buenos Aires, que se apaixonou de novo aos quarenta e foi abandonada com um bilhete.
Ela não esqueceu. Apenas se calou por tempo demais.
Marta, sessenta, vive com a mãe de noventa. É cuidadora, filha, enfermeira improvisada, arrumadeira, confidente.
Sua casa é abafada, com cheiro de camomila e de velhice. A televisão está sempre ligada, mas ninguém escuta.
Não tem filhos. Teve um amor aos trinta e três, Helena, com quem viveu escondida por quatro anos. A família não aceitou, Helena partiu, e Marta nunca mais soube.
Nunca mais amou.
Mas há cinco anos, começou a escrever. Cadernos escondidos na gaveta da cozinha, com histórias de mulheres que fugiram, ousaram, enlouqueceram, amaram demais.
Não publica. Não mostra. Mas toda vez que termina um conto, acende uma vela e olha pela janela. Esperando? Talvez.
Mas principalmente resistindo.
E foi numa tarde de sábado, abafada e comum, que as quatro se encontraram.
O bairro organizava uma feira pequena: livros, tendas, música. Clarice foi pelo cartaz do cinema ao ar livre — precisava ver mais histórias.
Jandira passava voltando da caminhada e parou diante de uma tenda que tocava forró. Lembrou de Amarildo.
Lúcia foi porque a neta insistiu para que lesse sua carta em voz alta.
Marta foi comprar um novo caderno. O antigo tinha acabado.
Esbarraram-se ali, entre o som de um saxofone e o cheiro de pipoca estourando. Um tropeço, uma risada, um convite involuntário para sentar sob a sombra da mesma árvore.
Conversaram como velhas conhecidas. Riram. Falaram de tudo e de nada. Não mencionaram feitiços, mas todas sabiam, em algum lugar dentro do peito, que aquele momento não fora casual.
Porque quando as bruxas estão soltas, o mundo muda de lugar — mesmo que ninguém perceba.
E às vezes, basta um banco de praça e uma tarde morna para acordar o que estava adormecido.
Não é feitiço. É encontro.
É o começo de um novo capítulo, sem pressa, sem garantias — mas com verdade.
As Bruxas Estão Soltas — Parte II
O que começa como acaso, às vezes vira ritual.
Depois daquele sábado abafado, as quatro mulheres voltaram às suas rotinas. Clarice para o marido que lia em silêncio as manchetes do jornal. Jandira para a casa com cheiro de desinfetante, onde os filhos mal saíam do quarto. Lúcia para o quintal com hortênsias e as tardes de chá e solidão escolhida. Marta para os remédios da mãe e a novela que sempre começava antes das seis.
Mas algo havia mudado.
Não era visível — ainda.
Era como uma brasa: pequena, teimosa, guardada debaixo das cinzas do hábito.
Uma promessa não dita: “A gente se encontra de novo?”
E se encontraram.
No outro sábado, Clarice mandou uma mensagem para o número que Jandira lhe escrevera num guardanapo manchado de café. “Vai no parque hoje?”
Foi.
Jandira levou uma garrafa de água e uma cadeira dobrável.
Lúcia chegou depois, com um livro e uma sacola com biscoitos amanteigados.
Marta apareceu por último, em silêncio, com um caderno novo e uma flor presa no cabelo.
Se sentaram no mesmo banco. E, assim, sem pretensão, fundaram um pequeno refúgio.
Não era um clube. Nem um grupo. Não havia nome.
Era só um encontro de mulheres que, juntas, podiam ser mais inteiras.
Clarice contou, com um riso sem graça, que havia sugerido ao marido dormirem em quartos separados. “Por enquanto, para dormir melhor”, dissera. Na verdade, queria sonhar em paz.
Jandira confessou que reencontrara Amarildo no Facebook. Casado. Dois filhos. “Mas ainda dança como se estivesse com os pés no chão errado”, disse ela.
Lúcia leu um poema que escrevera naquela manhã. Versos curtos, firmes, quase secos. Mas a voz tremia.
Marta ouviu tudo, quieta, até que abriu o caderno e leu um trecho sobre uma mulher que vivia sozinha com a mãe e escrevia cartas que nunca enviava. “Não é ficção”, disse. E ninguém duvidou.
Na terceira semana, choveu. E, mesmo assim, foram. Sentaram-se sob a cobertura do coreto. Riram de si mesmas.
“Só bruxa mesmo pra sair de casa com essa chuva”, disse Jandira, e todas gargalharam.
Ali, naquele riso cúmplice, nasceu o nome que nenhuma precisou escrever: As Bruxas do Coreto.
Não falavam de mágica. Mas criavam pequenas.
Lúcia ensinava a Clarice como usar reticências sem culpa.
Jandira mostrou a Marta um aplicativo de dança.
Clarice levou Marta a uma feira de livros usados e comprou para ela o exemplar de um romance esquecido, onde uma mulher sumia por vontade própria.
Marta, certa tarde, entregou a Lúcia um envelope: dentro, uma carta escrita por ela mesma — agora devolvida com um bilhete: “Você ainda é.”
E assim, entre cafés, confidências e pequenos rituais de resistência, as bruxas foram se costurando.
Começaram a se encontrar fora do parque. Uma ida ao cinema. Um piquenique no quintal de Lúcia. Uma noite em que ficaram até tarde na casa de Marta, falando sobre o medo da velhice, o peso das renúncias, os amores que ficaram.
Nenhuma queria mudar de vida. Mas queriam caber melhor dentro da própria.
Na última reunião antes do fim do verão, fizeram algo inusitado: planejaram uma viagem.
Nada grandioso. Uma pousada simples perto do mar.
Três dias. Sem filhos. Sem desculpas. Sem papéis.
Só elas. As quatro.
Jandira disse: “Não sei se posso.”
Lúcia sorriu: “Justamente por isso deve.”
Clarice completou: “E se a gente nunca for?”
Marta apenas disse: “Vamos.”
Talvez fossem. Talvez não.
Mas só de sonhar com aquilo juntas, o feitiço já estava lançado.
As Bruxas Estão Soltas — Parte III
A viagem não mudou tudo. Mas mudou o suficiente.
Era começo de primavera quando elas partiram. Três dias. Uma pousada simples, sem luxo, sem espelhos em excesso. Quartos pequenos, com janelas que davam para o mar e uma varanda onde cabiam quatro cadeiras de plástico e um vento insistente.
Foram de carro. Jandira dirigiu. Clarice fez a playlist. Marta levou os sanduíches. Lúcia contou histórias. Riram, cantaram desafinadas, se calaram nos trechos longos da estrada como quem respeita o tempo e seus silêncios.
Ao chegarem, não correram para o mar. Sentaram-se na varanda e só observaram. O oceano lá embaixo, as ondas indo e vindo, como tudo na vida.
Clarice, na primeira manhã, acordou cedo. Tomou café sozinha, sentada num banco de pedra, olhando as gaivotas. Pensou no marido, na vida que deixara lá atrás por alguns dias. E, sem culpa, escreveu num guardanapo: “Pela primeira vez, sou só minha. E gosto.”
Na última noite, contou às outras que há meses não transava — nem com o marido, nem com ninguém.
“Nem sei se sinto falta disso”, disse.
“Talvez só sinta falta de ser tocada com verdade.”
Jandira, no segundo dia, mergulhou. Foi a única. Entrou no mar com o cabelo preso e saiu com ele solto, sorrindo como quem quebrava um voto invisível.
Depois, caminhou sozinha pela areia. Encontrou uma rede estendida entre duas árvores e deitou ali. Dormiu.
Quando acordou, disse que sonhou com Amarildo.
“Ele ainda dança, mas eu também. E sozinha, danço melhor.”
Lúcia, à tarde, levou um livro para a beira-mar e acabou escrevendo em vez de ler.
Viu duas jovens de mãos dadas, rindo alto.
Sorriu.
Disse para si mesma: “Talvez eu nunca tenha sido tão livre quanto agora, viúva, velha, esquecida por muitos, lembrada por mim.”
À noite, leu um poema para as amigas. Falava de marés, saudade e coragem.
Marta chorou. Nenhuma perguntou por quê.
Marta, no terceiro dia, ao entardecer, contou o que nunca dissera a ninguém:
“Helena... foi meu grande amor.”
Clarice segurou sua mão.
Jandira não disse nada, mas seus olhos disseram.
Lúcia sorriu:
“Você escreveu sobre ela, não escreveu?”
Marta assentiu.
“Continue escrevendo. A gente precisa dessas histórias.”
Na despedida, antes de partirem, as quatro enterraram na areia um envelope com um segredo de cada uma. Prometeram não desenterrar. Era um ritual, nada mais. Ou tudo mais.
Voltaram para casa com areia entre os dedos dos pés, o cheiro de maresia nos cabelos e um pacto silencioso: de não voltarem exatamente as mesmas.
A viagem não mudou tudo.
Mas mudou o suficiente.
E agora, as bruxas estão soltas demais para caber de novo nas mesmas gaiolas.
As Bruxas Estão Soltas — Parte IV
Às vezes, o fim de uma história é só o início de um outro jeito de viver.
Voltaram. Cada uma ao seu canto, à sua rotina, às suas pequenas guerras diárias.
Mas alguma coisa — imperceptível aos olhos de fora — havia mudado nelas.
Clarice, na semana seguinte à viagem, fez algo simples: pediu ao marido para jantarem fora, em um restaurante novo da cidade.
Ele hesitou, reclamou do trânsito, mas foi.
Durante o jantar, ela olhou para ele longamente e disse:
“Não quero mais viver no automático.”
Ele a olhou, pela primeira vez em muito tempo, como quem repara.
Não houve grandes declarações, nem lágrimas.
Mas naquela noite, dormiram em quartos diferentes. E foi bom.
Ela passou a escrever num caderno com capa vermelha: relatos de si mesma. Um por semana. Pequenas crônicas da mulher que voltava a emergir, depois de anos submersa.
Jandira voltou a caminhar, mas agora com menos pressa. Comprou uma bicicleta usada e passou a pedalar pelas ruas do bairro ao entardecer.
Numa dessas voltas, encontrou uma senhora caída na calçada e ajudou-a a levantar. A senhora sorriu e disse:
“Você é forte.”
Jandira agradeceu. Voltou pra casa pensando que há anos não ouvia isso de ninguém.
Escreveu numa folha solta e colou na geladeira:
“Sou forte. Mas não preciso ser o tempo todo.”
Começou a pensar em mudar de casa. De vida, talvez. Ainda sem pressa.
Lúcia seguiu indo à oficina de escrita. Foi chamada para participar de uma coletânea de autoras da terceira idade. Disse sim.
Quando recebeu o primeiro exemplar impresso, cheirou as páginas e chorou baixinho.
Não pelo livro. Mas por tudo que ela havia atravessado para estar ali.
Passou a visitar uma livraria nova no centro, onde conheceu uma mulher chamada Teresa. Viúva, leitora voraz, dona de uma risada aguda.
Tomaram café juntas uma, duas, três vezes.
A vida não oferecia promessas. Mas Lúcia já não tinha medo de aceitar convites.
Marta, uma semana após o retorno, encontrou numa caixa antiga um cartão-postal de Helena — jamais enviado.
Lia-se apenas: “Eu te esperei até a última curva.”
Guardou o cartão, mas dessa vez, não o escondeu.
Passou a deixar seus cadernos abertos sobre a mesa.
Um dia, numa manhã de domingo, sua mãe — quase sem lucidez — apontou para o texto e disse:
“Essa mulher aqui… é você?”
Marta respondeu:
“Sou. E não sou. Mas estou ficando.”
E sorriu, como quem se reencontra.
No último sábado do mês, as quatro voltaram ao parque.
Mesmo banco. Mesmo coreto.
Trouxeram café, palavras, novidades.
Não se abraçaram com estardalhaço, nem gritaram sua amizade ao mundo.
Mas o silêncio entre elas era leve. E isso bastava.
Antes de irem embora, Clarice tirou da bolsa um envelope pequeno. Dentro, uma folha com quatro nomes escritos à mão.
Acima deles, um título improvisado:
As Bruxas Estão Soltas — um livro a quatro mãos.
Jandira riu.
Lúcia ajeitou os óculos.
Marta olhou para o céu.
Sim.
Ainda havia histórias para viver.
E agora, já não estavam sozinhas.
Silvia Marchiori Buss

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