Um Dia Comum Depois da Democracia
Há algo de extraordinário e, ao mesmo tempo, de
absolutamente cotidiano na democracia. O povo vota, escolhe, decide. E, quando
as urnas encerram seu trabalho, a vida continua. Talvez essa seja uma das suas
maiores lições: compreender que a vontade popular não suspende o mundo, não
interrompe o relógio, não nos dispensa das obrigações de todos os dias.
Podemos gostar do resultado. Podemos lamentá-lo.
Podemos sentir esperança ou apreensão diante dos caminhos que se anunciam. Cada
um carrega suas convicções, seus receios, suas expectativas. Mas a democracia
não existe apenas para confirmar aquilo em que acreditamos. Ela também exige
que saibamos conviver com decisões diferentes das nossas.
A decisão do povo é soberana dentro das regras
democráticas. E respeitá-la é parte do compromisso que assumimos com a própria
democracia. Isso não significa concordar, silenciar diante dos erros ou
abandonar o direito de questionar. Significa entender que a discordância também
tem seu lugar, que a oposição é legítima e que nenhum resultado eleitoral nos
retira o direito de continuar pensando, falando e participando.
E o que nos resta, depois de uma escolha coletiva?
Amanhecer. Preparar o café. Abrir as portas. Atender
ao telefone. Cuidar dos filhos, dos netos, dos negócios, das tarefas que
ficaram à espera. Trabalhar. Fazer aquilo que precisa ser feito.
Como em qualquer outro dia.
Não podemos entregar aos governos a responsabilidade
integral pela nossa felicidade, pelo nosso fracasso ou pelo destino de tudo
aquilo que construímos. Governos passam. Sistemas mudam. As políticas públicas
interferem profundamente na vida das pessoas, e seria ingênuo ignorar o peso
das decisões tomadas por quem governa. Mas há uma parte da vida que continua
exigindo de nós iniciativa, responsabilidade, trabalho e coragem,
independentemente de quem ocupa o poder.
Se as coisas vão bem, não podemos atribuir todos os
méritos a quem governa. Se vão mal, tampouco podemos nos esconder inteiramente
atrás das circunstâncias para justificar nossa imobilidade. Há
responsabilidades individuais, há responsabilidades coletivas e há
responsabilidades que cabem, sim, aos governantes. Saber distinguir umas das
outras talvez seja uma das formas mais maduras de exercer a cidadania.
O voto escolhe representantes, mas não transfere a
eles a nossa consciência.
É curioso como, em determinados momentos, parecemos
depositar nas urnas mais do que uma escolha política. Depositamos nossas
esperanças, nossas frustrações, às vezes até a expectativa de que alguém venha
resolver aquilo que não conseguimos resolver sozinhos. E, quando o resultado
não corresponde ao que desejávamos, corremos o risco de transformar a decepção
em paralisia, a indignação em hostilidade, a divergência em motivo para romper
com aqueles que pensam diferente.
Mas a vida não pode ficar à espera de um resultado
eleitoral que nos agrade.
A democracia não nos promete dias fáceis. Não garante
que nossas escolhas estarão sempre certas, nem que o futuro seguirá o caminho
que imaginamos. Ela nos oferece a possibilidade de participar, de escolher, de
mudar de opinião, de contestar e de voltar a escolher. É um exercício
permanente, muito maior do que o instante em que depositamos o voto na urna.
Por isso, depois de cada eleição, há algo que
precisamos recuperar: a disposição de seguir vivendo juntos, mesmo quando não
escolhemos o mesmo caminho.
Amanhã, o vizinho continuará sendo nosso vizinho. O
colega de trabalho continuará precisando da nossa colaboração. A família
continuará reunida em torno de suas diferenças, que nem sempre são políticas. A
cidade continuará precisando de pessoas que cuidem de suas ruas, de suas
escolas, de seus espaços públicos. E o país continuará dependendo de milhões de
brasileiros que acordam cedo, cumprem suas tarefas, criam seus filhos, estudam,
empreendem e trabalham.
Nenhum governo faz isso sozinho.
Talvez a verdadeira medida da nossa relação com a
democracia esteja justamente na capacidade de atravessar as horas seguintes a
uma eleição. Sem euforia obrigatória. Sem desespero. Sem a pretensão de que a
nossa vontade individual deva prevalecer sobre a vontade coletiva.
Se o resultado nos alegra, que a alegria não nos torne
arrogantes. Se nos entristece, que a tristeza não nos roube a capacidade de
agir.
Amanhã será um dia comum. E isso não é pouco.
Será mais um dia em que poderemos escolher como tratar
as pessoas, como realizar nosso trabalho, como contribuir para a comunidade e
como defender aquilo em que acreditamos. Continuaremos tendo voz, opinião e
responsabilidade. Continuaremos podendo cobrar, fiscalizar e participar.
Porque a democracia não termina quando as urnas são
fechadas. É justamente ali que começa outra parte do trabalho.
O povo decide. A democracia estabelece as regras dessa
decisão. E a nós cabe respeitá-las, sem abrir mão da consciência, da liberdade
de questionar e da responsabilidade de seguir construindo a vida que desejamos.
No dia seguinte, portanto, que se abram as janelas,
que o café seja servido, que o trabalho recomece.
O país não pertence apenas a quem ganhou a eleição.
Pertence a todos nós.
E todos nós continuamos aqui.
Silvia Marchiori Buss
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