Teus Olhos Verdes
Ela sabia o quanto eram enigmáticos os seus olhos. Não
apenas pela cor, mas por tudo o que parecia morar dentro deles.
Durante o curso de Biologia, aprendera que a cor dos
olhos tinha explicações genéticas, relacionadas à quantidade e à distribuição
de melanina na íris e à maneira como a luz era dispersada. Os olhos verdes, tão
raros, não eram exatamente verdes. Havia neles uma combinação de fatores que
produzia aquela tonalidade, um meio-termo entre o castanho e o azul, sem ser
nenhum dos dois.
Ela gostava de pensar que seus olhos eram de cor
falsa. Mudavam conforme a luz, o lugar, a hora do dia. Sob o sol, podiam ficar
claros, quase dourados. Na sombra, escureciam, ganhando uma profundidade que
fazia as pessoas demorarem um pouco mais o olhar.
Talvez por isso a chamassem de a moça dos olhos verdes
enigmáticos.
Ela nunca soube o que as pessoas procuravam descobrir
quando a olhavam tão demoradamente(ou era ela que olhava ...- gostava de um
olhar firme...) Se era a cor, se era alguma coisa escondida atrás dela ou se
simplesmente tentavam decifrar uma mulher que nem sempre revelava o que se
passava por dentro.
Seus olhos, porém, tinham visto muito.
Conheceram a curiosidade de uma menina que queria
entender o mundo, a inquietação de uma jovem diante das escolhas e a segurança
que chegou com o tempo, embora nunca tenha sido completa. Viram sonhos mudarem
de forma, planos serem interrompidos e outros nascerem quando ela já não
esperava.
Também conheceram o amor. Aquele que começa no
encontro de duas pessoas e, sem que elas percebam exatamente quando, passa a
fazer parte de tudo: dos hábitos, das decisões, dos cafés compartilhados e até
da maneira de olhar para o futuro.
Por décadas, seus olhos tiveram outros olhos para
procurar. Bastava encontrá-los do outro lado da sala para que alguma coisa se
ajeitasse dentro dela. Havia entre os dois uma intimidade construída ao longo
dos dias, feita de cumplicidade, brincadeiras e conversas que não precisavam
chegar ao fim.
E como sabiam rir! Às vezes, bastava uma expressão,
uma palavra fora de hora, uma lembrança antiga. O riso vinha antes que ela
pudesse contê-lo, e seus olhos se apertavam, quase desaparecendo no rosto.
Mas eles também se indignavam. A injustiça os tornava
duros, e certas atitudes provocavam um brilho que dispensava qualquer discurso.
Ela nunca teve muita habilidade para fingir indiferença. Podia controlar as
palavras, escolher o silêncio, mas seus olhos costumavam chegar à verdade antes
dela.
Foi assim que aprenderam a reconhecer as pessoas. Com
o tempo, passaram a distinguir o entusiasmo verdadeiro das promessas vazias, a
tristeza escondida atrás de um sorriso e a delicadeza daqueles que não
precisavam anunciar suas boas intenções.
A vida, entretanto, ainda lhes reservava experiências
para as quais não havia preparo.
Eles conheceram hospitais, corredores, o medo diante
de um diagnóstico e a espera por notícias. Viram a fragilidade do corpo e
descobriram que a coragem nem sempre tem uma aparência grandiosa. Às vezes, ela
está apenas em levantar da cama, retomar uma atividade ou encontrar disposição
para o dia seguinte.
Depois, veio a perda.
O homem que havia compartilhado tantos anos com ela
morreu em seus braços, deixando uma ausência que não cabia nos lugares da casa
nem nas palavras que tentavam explicá-la.
Seus olhos verdes, acostumados a encontrá-lo,
precisaram se adaptar a uma realidade que não escolheram. O café da manhã
continuou existindo, a música ainda podia tocar, o sol entrava pelas mesmas
janelas. Mas faltava alguém que conhecia suas expressões melhor do que qualquer
outra pessoa.
E havia momentos em que ela se esquecia, por alguns
segundos, de que ele não estava mais ali. Eram breves intervalos, logo
interrompidos pela lembrança. Seus olhos denunciavam o que ela ainda tentava
acomodar dentro de si.
A mulher que estudara a vida, que confiava na ciência
e procurava explicações para os fenômenos da natureza, encontrava-se diante de
perguntas para as quais não tinha respostas satisfatórias.
O que fazer com tudo aquilo que continua existindo
dentro de nós quando alguém deixa de existir ao nosso lado?
Seus olhos não responderam. Continuaram olhando.
Talvez tenham sido eles que a ajudaram a perceber que
o mundo não havia perdido todas as suas cores. Ainda havia os filhos, os netos,
as conversas inesperadas, os lugares por conhecer e as histórias que insistiam
em pedir para ser escritas. Nada disso apagava a falta que sentia. Apenas lhe
permitia continuar fazendo parte da vida.
E ela continuou.
Aos poucos, seus olhos voltaram a se demorar nas
coisas. Uma paisagem, uma frase lida por acaso, o movimento das pessoas nas
ruas. Voltaram a se iluminar diante de uma descoberta e a se encher de lágrimas
quando alguma lembrança chegava sem aviso.
Afinal, eram olhos vivos. Não tinham obrigação de
permanecer tristes para provar que haviam amado, nem de esconder a saudade para
demonstrar que estavam seguindo em frente.
Certa vez, diante do espelho, ela observou
demoradamente a própria imagem. O tempo havia deixado suas marcas, como era
natural. O rosto já não era o mesmo, mas o verde continuava mudando conforme a
luz.
Pensou no que a Biologia lhe ensinara. A cor tinha sua
explicação nos pigmentos, na genética, na forma como a luz atravessava e se
dispersava na íris. Não havia mistério nisso.
O enigma estava em outro lugar.
Estava naquilo que aqueles olhos haviam testemunhado e
que, de alguma maneira, participara da construção de sua alma. Na capacidade de
se emocionar, na indignação que ainda a movia, na ternura que sobrevivia às
decepções e naquele coração que, apesar de tudo, continuava disposto a amar.
Talvez as pessoas os achassem enigmáticos porque
procuravam neles uma resposta, quando havia ali uma história inteira.
Ela sorriu para o espelho. A luz da tarde tornou seus
olhos mais claros, quase dourados.
Eram verdes, sim. Ou talvez não fossem tanto.
Pouco importava.
A cor podia ser explicada pela ciência. Mas tudo o que
aqueles olhos haviam visto, amado e perdido era parte de uma mulher que nem a
ciência, sozinha, conseguiria traduzir.
Ela apagou a luz do banheiro e seguiu para a sala,
onde havia coisas por fazer e uma página ainda incompleta esperando por ela.
Os olhos verdes continuavam ali, atentos ao que viria.
Enigmáticos, como sempre.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário