SOU BRASILEIRA E SOU COLORADA
Sou brasileira e sou colorada. Gosto da bandeira do
meu país, do vermelho da camiseta do Internacional, de música, de livros e de
palavras. Gosto de tudo aquilo que desperta sentimentos, provoca lembranças e
nos faz sentir parte de alguma coisa. Nunca imaginei que, um dia, gostar de
determinadas cores pudesse exigir explicações.
Tenho pensado nisso ultimamente. Não me lembro de ter
visto tanta gente se desentendendo por causa de política. Ou talvez eu não
prestasse tanta atenção. O fato é que hoje parece que precisamos descobrir de
que lado uma pessoa está antes mesmo de ouvir o que ela tem a dizer. Direita ou
esquerda? Qual partido? Em quem vota?
Até as palavras parecem estar sendo examinadas.
Algumas são pronunciadas e imediatamente classificadas. Outras despertam
desconfiança, dependendo de quem as utiliza. E eu me pergunto: desde quando as
palavras passaram a ter dono?
As palavras estão nos dicionários, nos livros, nas
conversas, nas canções e nos poemas. São instrumentos de comunicação, de
criação, de afeto e de conhecimento. Podem aproximar pessoas ou machucar
sentimentos, dependendo da maneira como são usadas. Por isso, acredito na
liberdade de expressão, mas também no respeito e na educação. Podemos dizer o
que pensamos sem precisar diminuir quem pensa diferente.
O mesmo acontece com as cores.
Sou colorada. O vermelho da camiseta do Internacional
tem um significado especial para mim. Está ligado à paixão pelo meu time, às
lembranças, às alegrias e à história que compartilho com tantos outros
torcedores. Mas o vermelho não pertence apenas aos colorados. Está nas flores,
nas pinturas, nas roupas e em tantas coisas bonitas que encontramos pelo
caminho. É uma cor, e cada pessoa tem o direito de gostar dela pelo motivo que
quiser.
O azul representa o Grêmio e desperta o amor dos
gremistas. E assim deve ser. Podemos ter nossas preferências, nossas paixões e
nossas rivalidades esportivas sem transformar tudo em motivo de divisão.
Mas existe um símbolo que me faz pensar ainda mais
sobre essa questão: a bandeira brasileira.
Tenho a impressão de que a nossa bandeira, que deveria
representar todos nós, passou a ser identificada por parte da população com uma
determinada posição política. O verde e o amarelo, que sempre estiveram
presentes nos símbolos do nosso país, ganharam interpretações que vão além de
seu significado nacional.
E a bandeira passou a parecer propriedade de um grupo.
Não deveria ser assim. A bandeira brasileira não
pertence a um partido, a um candidato ou a um governo. É o símbolo de um país
inteiro, de um povo que tem diferentes histórias, opiniões, crenças e escolhas.
É de quem vota à direita, de quem vota à esquerda e de
quem escolhe outros caminhos. É de quem concorda com o governo e de quem o
critica. Todos são brasileiros, todos têm o direito de se expressar e todos
podem reconhecer naquele pedaço de tecido a representação da sua pátria.
Não precisamos pensar da mesma maneira para ter o
direito de amar o mesmo país.
E o que dizer da nossa cultura? Da música brasileira,
da literatura, da pintura, das danças, das festas populares e das manifestações
do nosso folclore? Tudo isso faz parte de uma história construída por muitas
gerações. É um patrimônio que podemos conhecer, apreciar e preservar,
independentemente de nossas convicções políticas.
Uma canção não precisa perguntar em quem votamos para
nos emocionar. Um livro não exige que concordemos com seu autor para nos fazer
refletir. Uma obra de arte não perde sua beleza porque foi criada por alguém
que pensa diferente de nós.
O que é belo merece ser admirado. O que tem valor
merece ser reconhecido.
Não estou dizendo que devemos abandonar nossas
convicções ou deixar de discutir política. Pelo contrário. A democracia precisa
de pessoas que pensem, questionem, participem e defendam suas ideias. Mas a
política não precisa ocupar todos os espaços da nossa vida, muito menos
determinar o que podemos apreciar, quais palavras podemos usar ou de quais
cores podemos gostar.
Quero poder vestir minha camiseta vermelha sem que
alguém atribua à minha escolha a um SIGNIFICADO QUE ELA NÃO TEM. Quero admirar
a bandeira SEM QUE ISSO SEJA ATRIBUIDA A UMA ESCOLHA PARTIDÁRIA. Quero ouvir
uma música, ler um poema e conversar com pessoas diferentes de mim SEM PRECISAR
DESCOBRIR PRIMEIRO DE QUE LADO ELAS ESTÃO. Isso é INTELIGÊNCIA DEMOCRÁTICA.
Sou brasileira e sou colorada. Tenho minhas
preferências, minhas opiniões e minhas convicções. Respeito quem pensa
diferente, assim como espero que respeitem minhas escolhas.
Não quero um país em que todos pensem igual. Quero um
país em que as diferenças não nos impeçam de conviver, conversar e reconhecer
aquilo que compartilhamos.
A bandeira não tem dono. As palavras não têm dono. A
música, a arte e as cores não pertencem exclusivamente a uma ideologia.
Pertencem à vida, à cultura e à liberdade de um povo
que tem o direito de construir sua própria história seja de direita ou de
esquerda...
E é por isso que digo, sem precisar escolher entre uma
coisa e outra:
Sou brasileira e sou colorada.
Gosto do vermelho do meu time, das cores da minha
bandeira e das palavras que me permitem expressar o que sinto.
Não quero ser antipolítica. Quero ser brasileira. E
quero continuar acreditando que o BRASIL É DE TODOS AQUELES QUE O AMAM, independentemente
de como pensam ou em quem votam.
Silvia Marchiori Buss
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