Eu Quero Crer


Não sei exatamente quando comecei a conversar com a ausência. Talvez tenha sido numa manhã qualquer, diante de duas xícaras de café, quando percebi que uma delas já não precisava ser colocada sobre a mesa.

A casa continuava a mesma. Os móveis, os quadros, os objetos que escolhemos juntos ao longo de tantos anos. Até o silêncio parecia conhecer os nossos hábitos. Mas havia alguma coisa diferente no ar, uma espécie de espera que não terminava.

Passei boa parte da vida confiando na ciência. Sou bióloga, aprendi sobre a vida, sobre as transformações da matéria, sobre os ciclos que começam e acabam. Sei que o corpo tem seus limites, que a morte faz parte da existência. Sei tudo isso.

Ou penso que sei.

Porque uma coisa é estudar a morte. Outra, muito diferente, é segurar nos braços a pessoa com quem dividimos quase cinquenta anos e compreender que aquele corpo amado já não responde ao nosso toque.

Naquele momento, nenhum conhecimento me preparou.

Os dias passaram. As pessoas voltaram às suas rotinas, as notícias continuaram chegando, o mundo não interrompeu seu movimento. Eu também continuei. Havia filhos, netos, compromissos, a casa, as pequenas  e grandes obrigações que nos esperam mesmo quando alguma coisa dentro de nós deixou de funcionar direito.

Mas, de vez em quando, eu me pegava olhando para um lugar vazio.

Não era exatamente esperar que ele aparecesse. Era mais complicado. Eu queria saber se aquilo que tínhamos vivido continuava existindo em algum lugar que eu não pudesse alcançar.

Não sei se existe outra vida. Não sei se os mortos nos escutam, se há reencontros, se um dia reconheceremos as pessoas que amamos. Não tenho provas, e não consigo inventá-las apenas porque preciso delas.

Ainda assim, quero crer.

Quero crer que o amor não se reduz ao tempo em que dois corpos estiveram juntos. Que existe alguma coisa na experiência de amar alguém por quase cinquenta anos que não cabe inteiramente na palavra fim.

Às vezes, lembro de uma conversa nossa. Em outras ocasiões, uma música me devolve a um tempo que parecia guardado. Há manhãs em que me surpreendo pensando no que ele diria sobre alguma notícia, sobre um carro bonito na rua, sobre uma bobagem qualquer que só nós dois acharíamos engraçada.

Nessas horas, não sei explicar o que acontece comigo. Sei apenas que ele continua fazendo parte das minhas conversas, mesmo quando sou a única a falar.

Talvez seja a memória. Talvez seja o amor procurando um lugar para ficar.

Não preciso escolher uma resposta agora.

A vida me ensinou a desconfiar das certezas fáceis. A morte, por sua vez, me colocou diante de uma pergunta para a qual não encontrei resposta alguma.

E sigo assim, entre o que conheço e o que desejo conhecer.

Há dias em que a razão fala mais alto. Em outros, a saudade abre uma fresta e eu me permito imaginar que a história não tenha terminado exatamente onde meus olhos deixaram de enxergá-la.

Não sei se um dia voltaremos a nos encontrar. Não sei sequer se essa pergunta tem uma resposta.

Mas, se houver um lugar onde o amor possa reconhecer o amor, espero que ele saiba quem sou.

E, enquanto esse dia não chega — se chegar —, continuo vivendo. Não porque tenha compreendido a ausência, mas porque ainda estou aqui, com tudo o que vivi, com as pessoas que amo e com tantas coisas que ainda quero fazer.

Hoje, quando preparo meu café, às vezes olho para a outra xícara.

Não a coloco mais sobre a mesa.

Mas também não consigo dizer que tudo acabou.

Eu quero crer.

E, por enquanto, essas três palavras me acompanham.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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