E Assim, Meu Anjo Voltou
Ele já tinha estado ali.
Por muito tempo, fez morada
em mim sem que eu precisasse perguntar de onde vinha. Estava no coração, no
espírito, na alma, naquele lugar que não se explica e onde algumas presenças
parecem pertencer desde sempre.
Depois, um dia, foi embora.
Não sei exatamente quando,
mas desconfio porque...
Talvez tenha saído devagar,
enquanto eu estava ocupada demais tentando entender outras coisas. Talvez tenha
levado consigo uma parte da luz que havia dentro de mim. Só percebi sua
ausência quando aquele espaço começou a parecer grande demais.
Fiquei com o vazio.
E com a lembrança de que,
um dia, ele estivera ali.
Não houve despedida.
Nenhuma porta bateu. Nenhum sinal avisou que era hora de partir.
Apenas ficou o silêncio.
Durante algum tempo, pensei
que meu anjo não voltaria.
Mas certas ausências não
significam partida definitiva.
Um dia, quase sem perceber,
senti alguma coisa diferente.
Não era ainda a presença
inteira. Era apenas uma pequena mudança no ar, uma sensação difícil de
reconhecer. Como quando a gente ouve ao longe uma música conhecida e não sabe
de onde vem.
Depois vieram outras
coisas.
Uma lembrança que chegou
sem machucar tanto.
Uma manhã em que a luz
entrou pela janela de um jeito diferente.
Uma vontade de caminhar sem
destino.
Um sorriso que apareceu
antes que eu pudesse pensar nele.
Meu anjo estava voltando.
Devagar.
Sem estardalhaço.
Não voltou ocupando o mesmo
lugar de antes. Encontrou outro cantinho, talvez menor, talvez mais profundo.
Um espaço que a ausência havia criado dentro de mim.
E foi se acomodando.
Não apagou o tempo em que
esteve longe. Não desfez o que aconteceu enquanto eu caminhava sem ele. Apenas
encontrou uma maneira diferente de estar.
Dessa vez, não precisava
ocupar tudo.
Bastava estar.
Aos poucos, comecei a
perceber que algumas coisas em mim também voltavam. A vontade de ouvir música.
A curiosidade pelas pequenas coisas. O desejo de sair, de olhar as pessoas, de
sentir o vento no rosto. A capacidade de encontrar beleza onde antes havia
apenas silêncio.
Meu anjo não falava.
Nunca precisou.
Há certas presenças que não
precisam de palavras para serem reconhecidas.
Hoje, quando o silêncio
chega, eu já não tenho tanta pressa de preenchê-lo.
Fico quieta.
Escuto.
E, às vezes, tenho a
impressão de que ele está ali outra vez.
Não como antes.
De outro jeito.
Mais silencioso. Mais
próximo. Mais meu.
E assim, meu anjo voltou.
Não sei se voltou para
ficar.
Também não sei se anjos
precisam prometer permanência.
Só sei que, aos poucos,
aquele cantinho dentro do meu coração deixou de parecer vazio.
E eu aprendi a reconhecer
sua presença sem precisar vê-lo.
Silvia Marchiori Buss
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