As Palavras Que Não Obedecem

 

Havia uma palavra que não queria morrer na boca de quem a pronunciava.

Passara anos sendo dita sem ser sentida, oferecida sem ser entregue, escrita em cartões que acabavam no fundo de gavetas. Um dia, cansada de servir a tantas mentiras, escapou pela janela de uma carta e desapareceu na noite.

Era a palavra amor.

Ninguém percebeu sua partida. Na manhã seguinte, continuaram a usá-la nos mesmos lugares, com a mesma facilidade, entre promessas apressadas e despedidas que já estavam decididas antes mesmo de acontecerem.

Mas alguma coisa havia mudado. As bocas diziam amor. Os ouvidos escutavam amor. E, ainda assim, havia um espaço vazio entre as duas coisas.

A palavra caminhava pelos telhados, descalça, procurando abrigo. Passou por uma casa onde um homem dormia de costas para a mulher; por outra, onde uma mãe esperava o filho que prometera voltar cedo; por uma terceira, onde alguém relia uma mensagem antiga, tentando descobrir em que momento o afeto havia começado a se despedir.

Não entrou em nenhuma delas.

Seguiu adiante.

Naquela mesma noite, outras palavras começaram a fugir.

A palavra perdão não suportava mais ser pronunciada por quem pretendia continuar ferindo. A palavra liberdade sufocava nos discursos dos que desejavam escolher o caminho alheio. A palavra paz chorava escondida nos bolsos de homens que assinavam acordos durante o dia e preparavam novas guerras à noite.

Até a palavra amanhã, tão acostumada a sustentar esperanças, decidiu descansar.

Estava cansada de ser o lugar onde as pessoas depositavam tudo aquilo que não tinham coragem de fazer hoje.

As palavras não combinaram a fuga. Nenhuma assembleia, nenhum manifesto, nenhuma bandeira. Apenas começaram a abandonar as frases onde já não cabiam.

E o mundo, que sempre acreditara governá-las, descobriu que não sabia viver sem elas.

Foi então que uma palavra pequena, quase esquecida, saiu de um livro antigo.

Chamava-se ternura.

Não tinha a força sonora de justiça, nem a imponência de liberdade. Durante muito tempo, fora confundida com fraqueza. Agora, caminhava sozinha, procurando alguém que ainda soubesse reconhecê-la.

Encontrou uma senhora sentada à mesa da cozinha.

Diante dela havia uma xícara de café frio e duas fatias de pão. A mulher olhava para a cadeira vazia do outro lado da mesa. Não chorava. Havia dias em que as lágrimas não vinham, e o sofrimento precisava encontrar outras maneiras de permanecer.

Ternura aproximou-se.

A velha não a viu, mas estendeu a mão até a cadeira vazia, ajeitando o encosto com um cuidado desnecessário. Depois recolheu uma migalha da toalha e murmurou alguma coisa que ninguém ouviu.

A palavra sentou-se ao seu lado. E não precisou ser pronunciada para existir.

Lá fora, o vento arrancava folhas das árvores. Algumas voavam para longe; outras ficavam presas às grades, sem saber se ainda pertenciam ao galho ou se já eram parte do chão.

A senhora levantou-se, lavou a xícara e abriu a janela.

O ar entrou trazendo o cheiro da terra molhada.

Foi quando ternura compreendeu que nem todas as palavras precisavam voltar para a boca. Algumas podiam morar nas mãos, nos silêncios, no modo de fechar uma porta para não acordar quem dorme. Outras precisavam permanecer ausentes, porque certas ausências também dizem aquilo que a presença já não consegue.

Na manhã seguinte, as palavras continuavam espalhadas pelo mundo.

Algumas regressaram. Outras escolheram novos destinos. A palavra amor foi vista perto de um hospital, acompanhando um desconhecido que segurava a mão de outro desconhecido. A palavra coragem apareceu na garganta de uma mulher que finalmente disse não. A palavra esperança, que havia passado a noite escondida debaixo de uma ponte, foi encontrada por uma criança que plantava uma semente num terreno abandonado.

Mas nenhuma delas voltou a obedecer como antes.

Desde então, quem escreve precisa aceitar que as palavras têm suas próprias memórias. Há as que se recusam a descrever uma felicidade que nunca existiu. Há as que se calam diante de uma dor grande demais. Há as que chegam atrasadas, quando já não há ninguém para ouvi-las.

E há aquelas que permanecem anos dentro de nós, batendo delicadamente contra as paredes do peito, esperando uma fresta.

Talvez seja por isso que algumas pessoas escrevem.

Não para organizar o mundo, nem para encontrar respostas, muito menos para dar um nome definitivo às coisas.

Escrevem porque há palavras que não aceitam morrer no silêncio e outras que não suportam continuar vivas na mentira.

Escrevem porque, às vezes, uma palavra escapa de uma lembrança, atravessa o papel e encontra alguém que nunca conheceram.

E, por um instante, duas solidões deixam de estar inteiramente sozinhas.

Quanto às palavras que não obedecem, ninguém mais tentou prendê-las.

Há quem diga que, nas noites de vento, elas se reúnem nos galhos mais altos das árvores e conversam sobre os homens.

Não se sabe o que dizem.

Sabe-se apenas que, de vez em quando, uma folha cai sobre a página de um livro aberto, bem em cima de uma frase ainda inacabada.

E quem está escrevendo para.

Olha a folha.

Olha a frase.

E percebe que não era bem aquilo que queria dizer.

Silvia Marchiori Buss

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