A Visita
Naquele dia em especial,
Flora se fez bonita.
Não havia festa marcada,
convite sobre a mesa, nem qualquer compromisso que justificasse aquele cuidado
diante do espelho.
Mesmo assim, naquela manhã,
ela quis.
Tomou banho com calma,
passou creme no corpo e escolheu um perfume que há muito tempo permanecia
esquecido no fundo da gaveta.
Sentou-se diante do
espelho.
Pegou o batom vermelho.
Passou devagar sobre os
lábios. O vermelho fazia aparecer um pouco mais as pequenas rugas ao redor da
boca. Flora aproximou o rosto do espelho e ficou olhando.
Não tentou escondê-las.
Depois escolheu uma sombra
azul-clara e passou sobre as pálpebras. Um pouco de blush rosado nas faces.
Olhou novamente.
Gostou.
Havia muito tempo não se
arrumava daquele jeito. A rotina tinha feito com que maquiagem, perfume e
vestidos bonitos fossem ficando para depois. Depois de quê, ela já nem sabia.
Naquela manhã, resolveu não
deixar para depois.
Arrumou o cabelo num coque
banana. Soltou uma mecha, prendeu outra vez, ajeitou com os dedos.
Abriu o armário.
Entre vestidos escuros e
roupas que escolhera nos últimos tempos mais pela praticidade do que pela
vontade, encontrou um vestido florido.
Retirou-o do cabide.
Passou a mão sobre o
tecido.
Vestiu.
Diante do espelho de corpo
inteiro, ficou alguns instantes parada.
Girou um pouco.
As flores acompanhavam o
movimento da saia.
Flora sorriu.
— Bonito.
Não sabia se falava do
vestido ou dela.
Pegou a bolsa. Colocou o
celular, os óculos, o batom vermelho e um pequeno lenço.
Antes de sair, voltou ao
espelho.
Retocou a boca.
Naquele instante, pensou
nele.
Não soube exatamente por
quê.
Fazia tempo que não o
visitava.
A ideia vinha aparecendo
nos últimos dias, sem pressa, até que naquela manhã pareceu fazer sentido.
A visita.
Era assim que chamava.
Não gostava muito da
palavra.
Visita era quando alguém
abria a porta.
Quando havia café.
Quando duas pessoas tinham
coisas para contar uma à outra.
Ainda assim, era assim que
pensava naquele momento.
Pegou algumas flores.
Saiu.
Na rua, o dia estava claro.
Flora caminhou devagar, sentindo o perfume que havia colocado antes de sair.
Passou diante de uma
vitrine.
Parou.
Seu reflexo apareceu no
vidro.
O coque.
O vestido florido.
A boca vermelha.
Ela se olhou sem pressa.
Fazia tempo que não se
sentia bonita.
Não bonita para alguém.
Bonita para ela.
Continuou andando.
No caminho, pensou no que
diria.
Havia tanta coisa.
As pequenas coisas,
principalmente.
A vizinha nova.
O preço do supermercado.
A televisão que tinha
estragado.
O neto que ligara no
domingo.
Coisas que ele teria
escutado enquanto tomava café.
Coisas que agora ela
guardava.
Quando chegou ao cemitério,
segurou as flores junto ao corpo.
Entrou.
Caminhou pelo caminho
conhecido.
O salto baixo fazia um
ruído discreto sobre o chão.
Chegou.
Parou diante dele.
Por alguns segundos, não
disse nada.
Depois ajeitou o vestido,
quase sem perceber.
Olhou para as flores que
trazia nas mãos.
— Vim te visitar.
Disse baixinho.
Sentou-se.
Contou algumas coisas.
Parou.
Lembrou de outras.
Riu de uma delas.
Depois ficou em silêncio.
O vento mexeu nas folhas
das árvores e levantou um pouco a saia florida.
Flora segurou o tecido com
a mão.
O batom vermelho ainda
estava no lugar.
Ela passou os dedos sobre
os lábios e sorriu.
— Você ia gostar de me ver
assim.
Ficou mais um pouco.
Quando se levantou, ajeitou
novamente o coque.
Depois olhou para trás
antes de ir embora.
Não disse mais nada.
Levou consigo o perfume, o
vestido florido e uma sensação que não soube explicar.
Naquela tarde, quando
chegou em casa, passou novamente diante do espelho.
Parou por um instante.
Sorriu para o seu reflexo.
Depois foi tirar o vestido.
Silvia Marchiori Buss
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