A Temperatura do Teu Toque
Ela andava distraída pelas ruas de Mônaco, olhando as
vitrines sem realmente enxergá-las, quando sentiu uma mão pousar em seu ombro.
Não se virou imediatamente. Havia algo naquele toque
que lhe atravessou o corpo antes mesmo que pudesse pensar. A temperatura da
mão. A pressão delicada dos dedos. Uma intimidade que o tempo não conseguira
apagar.
Era ele.
Não havia dúvidas. Reconheceria aquela mão em qualquer
lugar do mundo.
Virou-se devagar, com o coração desobedecendo à idade,
à razão e a tudo o que aprendera sobre as ausências.
Ele estava ali. Com aquele sorriso que conhecia tão
bem, o mesmo que tantas vezes a esperara do outro lado da mesa do café, que a
encontrara no meio de uma conversa e que, durante quase cinquenta anos, lhe
dissera tantas coisas sem precisar de palavras.
Ela não perguntou como. Não quis saber de onde viera,
nem por que demorara tanto. Apenas o olhou, tentando guardar cada detalhe
daquele rosto que a memória insistia em devolver, embora já não pudesse
tocá-lo.
— Tu demoraste — foi tudo o que conseguiu dizer.
Ele sorriu.
E, naquele instante, Mônaco deixou de ser a cidade
elegante, cheia de turistas, carros luxuosos e barcos ancorados no
Mediterrâneo. Tornou-se apenas o lugar onde os dois se encontravam outra vez.
Ela lembrou-se de uma esquina, muitos anos antes,
perto do Hermitage, onde haviam se hospedado. Não era a primeira viagem juntos,
nem seria a última. Naquele tempo, ainda não sabiam quantas despedidas caberiam
dentro de uma vida, nem que um dia a lembrança de um beijo precisaria sustentar
a falta de todos os outros.
Naquela esquina, ele a puxara para perto e a beijara
sem pressa. Ela se recordava do lugar exato, da surpresa boa, da maneira como
ele a olhara depois, com um ar de quem guardava para si uma pequena vitória.
Quantas vezes haviam passado por ali sem imaginar que
aquela cena ficaria tão bem guardada?
A vida dos dois fora feita dessas coisas que não
aparecem nas fotografias. Os cafés tomados juntos, as conversas interrompidas
pelo telefone, as pequenas discordâncias, as viagens, os planos que mudavam no
caminho. A intimidade de conhecer o silêncio do outro. A liberdade de não
precisar explicar tudo.
Haviam envelhecido juntos sem perceber exatamente
quando isso acontecera. Os anos foram chegando aos poucos, escondidos nos
cabelos brancos, nas fotografias de família, nos filhos que cresceram e nos
netos que passaram a ocupar a casa com suas vozes e perguntas.
E, entre uma coisa e outra, continuaram sendo aqueles
dois que se procuravam no meio da multidão.
Ela se lembrava de como ele gostava de carros. Bastava
um motor diferente para que seus olhos ganhassem um brilho de menino. Às vezes,
ela fingia não se interessar tanto, mas acabava ouvindo suas explicações,
fazendo perguntas e sorrindo diante daquele entusiasmo que nunca lhe pareceu
ridículo.
Havia também os cafés da manhã. A mesa, os hábitos, a
presença dele do outro lado. Certas manhãs pareciam tão comuns que ninguém
pensaria em guardá-las. Hoje, ela daria quase tudo para recuperar uma delas.
Não uma data especial, não uma viagem extraordinária. Apenas uma manhã
qualquer, com ele ali, reclamando de alguma coisa, comentando uma notícia ou
perguntando o que fariam naquele dia.
O último café da manhã voltava à sua memória com uma
nitidez que a machucava.
Ela não sabia que estava vivendo uma despedida.
Como poderia saber?
O amor não avisa quando uma cena cotidiana se tornará
a última. Não há música ao fundo, nem palavras definitivas. Há apenas a vida
acontecendo, enquanto acreditamos que ainda teremos muitas outras manhãs.
E depois há o silêncio.
Desde que ele partira, ela aprendera a fazer coisas
que nunca desejara aprender. Continuava viajando, encontrando pessoas, olhando
paisagens, visitando lugares que antes compartilhavam. Por vezes, até ria com
vontade. Não se sentia culpada por isso. Sabia que ele não gostaria de vê-la
encolhida dentro da própria tristeza.
Mas havia momentos em que o mundo parecia grande
demais para uma pessoa só.
Mônaco era um desses lugares.
Ela estava ali, caminhando pelas mesmas ruas, e por
alguns segundos sentiu a falta dele de uma maneira quase física. Foi então que
aquela mão pousou em seu ombro.
Agora, diante dele, teve vontade de contar tudo.
Contar que a casa continuava de pé, embora algumas
coisas tivessem mudado de lugar. Que ainda ouvia músicas que ele gostava. Que
às vezes começava uma frase pensando em lhe contar alguma coisa e precisava
lembrar, no meio do pensamento, que já não podia telefonar para ele.
Queria dizer que os filhos seguiam suas vidas, que os
netos cresciam depressa, que havia acontecimentos bonitos e outros difíceis.
Queria falar das pequenas descobertas, dos medos que escondia dos outros, da
saudade que não obedecia ao calendário.
Sobretudo, queria perguntar se ele também se lembrava.
Da primeira vez em que se olharam daquele jeito. Dos
beijos roubados, das viagens, dos abraços demorados. Dos dias em que não tinham
nada de especial para fazer e, ainda assim, estar juntos era o melhor programa
possível.
Mas ele estendeu a mão.
Ela a segurou.
E não precisou perguntar.
Naquele gesto estavam os anos, as escolhas, as
dificuldades enfrentadas lado a lado e aquela cumplicidade que não se explica a
quem nunca dividiu uma vida inteira com outra pessoa.
Caminharam um pouco. Ela não sabia para onde iam, nem
precisava saber. Queria apenas aproveitar o milagre daquela proximidade, sentir
novamente o calor de sua mão e a familiaridade de seus passos.
Ao chegarem à esquina perto do Hermitage, ele parou.
Ela reconheceu o lugar antes mesmo de olhar ao redor.
O mesmo cenário, tantas coisas diferentes.
Ele aproximou o rosto do dela, e ela fechou os olhos.
O beijo aconteceu exatamente onde a memória o havia
guardado.
Quando tornou a abri-los, estava sozinha.
Um casal passou conversando em francês. Um homem
consultava o telefone junto à entrada de um edifício. Mais adiante, alguém ria.
Mônaco continuava sendo Mônaco.
Ela levou a mão ao ombro, no lugar onde sentira o
toque, e permaneceu ali por alguns instantes. Não tentou descobrir se havia
sonhado acordada, se a saudade lhe pregara uma peça ou se certas presenças
encontram caminhos que desconhecemos.
Havia aprendido que nem tudo o que nos acontece
precisa ser explicado imediatamente.
Retomou a caminhada.
Naquela tarde, ao contrário de outras, não sentiu
vontade de apressar os passos para chegar a algum lugar. Andou devagar, olhando
as fachadas, os rostos, o mar que aparecia entre os edifícios.
Antes de atravessar a rua, virou a cabeça.
Por um instante, teve a impressão de que ele vinha
logo atrás, com as mãos nos bolsos e aquele jeito de quem estava prestes a
fazer um comentário sobre algum carro estacionado.
Ela sorriu, quase pronta para responder.
Depois atravessou.
E, enquanto caminhava, uma lembrança insistia em
acompanhá-la: a temperatura daquela mão em seu ombro.
Não a lembrança de uma fotografia, nem a imagem de um
rosto.
A temperatura.
Como se, entre todas as coisas que o tempo podia
levar, o corpo tivesse escolhido guardar justamente aquilo que a razão jamais
saberia explicar.
E ela seguiu pelas ruas de Mônaco, levando consigo
quase cinquenta anos de uma vida a dois.
Naquela esquina, por alguns segundos, o tempo não
havia passado.
Silvia Marchiori Buss
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