A Felicidade é Um Trabalho de Formiguinha
Tenho pensado muito sobre a felicidade. Talvez porque
a gente passe boa parte da vida tentando descobrir o que ela é, onde se esconde
e por que, quando parece estar tão perto, escapa das mãos.
A felicidade é uma coisa abstrata. Cada um lhe dá um
significado, veste-a com as próprias expectativas e a coloca num lugar
diferente. Para alguns, ela mora nas grandes conquistas; para outros, está na
tranquilidade de uma vida sem sobressaltos. Há quem passe anos esperando por
uma viagem, uma casa, um amor, uma conta bancária que permita dormir sem
preocupações. E há quem tenha tudo isso e ainda sinta que falta alguma coisa.
Talvez o problema esteja na espera. Esperamos tanto
por aquele acontecimento que vai mudar tudo, que nem sempre percebemos o que
acontece enquanto esperamos.
A vida, entretanto, não costuma ser feita de grandes
acontecimentos. É feita de manhãs que se repetem, de compromissos, de pequenas
contrariedades, de notícias boas e ruins, de conversas que se prolongam e de
outras que gostaríamos que não tivessem terminado tão cedo. É feita de cafés,
de janelas abertas, de uma música que chega na hora certa, de um telefonema
inesperado, de alguém que se lembra de nós.
E é nesse território tão comum que a felicidade, às
vezes, resolve aparecer.
Não chega anunciada. Não traz um calendário, não pede pompa,
tampouco avisa quanto tempo pretende ficar. Pode durar o tempo de uma música, o
intervalo entre duas preocupações, o instante em que olhamos para alguém
querido e sentimos uma alegria tão simples que nem encontramos palavras para
explicá-la.
Por isso, acho que a felicidade exige de nós um
trabalho de formiguinha.
É preciso garimpar o dia. Não esperar que ele nos
entregue alguma coisa extraordinária, mas procurar, entre as horas, aquilo que
merece ser guardado. Um encontro agradável, uma conversa inteligente, uma
notícia que nos tranquiliza, uma tarefa concluída, uma lembrança que nos faz
sorrir. Até a satisfação de chegar em casa depois de um dia cansativo, vestir
um pijama velho e macio...pode ter o seu lugar nessa pequena coleção de
alegrias.
Isso não significa ignorar a tristeza, fingir que os
problemas não existem ou transformar a vida numa sucessão de pensamentos
otimistas. Há dias difíceis, perdas que alteram a nossa maneira de olhar o
mundo e ausências que nenhuma alegria consegue preencher. Seria ingênuo
imaginar que pequenas coisas resolvem grandes dores.
Mas também seria injusto permitir que a dor ocupasse
todos os espaços.
Podemos estar tristes e, ainda assim, apreciar um céu
bonito. Sentir saudade e nos alegrar com a presença de alguém. Carregar
preocupações e encontrar alguns minutos de prazer numa conversa. Uma coisa não
anula necessariamente a outra. A vida tem essa capacidade, nem sempre
compreendida, de abrigar sentimentos diferentes dentro de nós.
A felicidade é efêmera. Talvez seja essa uma das
razões pelas quais tantas vezes não a reconhecemos. Quando estamos vivendo um
momento feliz, raramente pensamos que ele vai acabar. Só mais tarde, ao
recordá-lo, percebemos o seu valor. A fotografia guardada, a mesa reunida, a
viagem que já terminou, a voz que gostaríamos de ouvir novamente. O tempo muda
a dimensão das coisas.
Por isso, tenho vontade de aprender a prestar mais
atenção ao presente. Não com a obrigação de ser feliz todos os dias, porque
isso seria apenas mais uma exigência colocada sobre os nossos ombros. Quero
apenas estar mais atenta ao que me acontece enquanto a vida segue.
Talvez felicidade seja isso: não uma condição
permanente, mas uma sucessão de pequenos encontros com aquilo que nos faz bem.
Um trabalho de formiguinha, sim. Juntar um pouco hoje,
outro pouco amanhã, sem desprezar o tamanho da porção. Há dias em que
encontraremos muito; em outros, quase nada. E haverá aqueles em que o simples
fato de termos atravessado as horas já terá exigido de nós um esforço
considerável.
Não precisamos transformar cada dia numa história
extraordinária. Precisamos apenas reconhecer que, mesmo nos dias comuns, alguma
coisa pode merecer a nossa atenção.
Amanhã, quem sabe, a felicidade esteja no cheiro do
café, numa palavra inesperada, no sol entrando pela janela ou numa risada que
nos surpreenda.
Convém não passar por ela distraídos.
Afinal, enquanto esperamos pela grande felicidade que
imaginamos, há pequenas felicidades acontecendo. E elas também fazem parte da
vida que estamos vivendo.
Silvia Marchiori Buss
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