Desconstrução


Durante muitos anos, ela acreditou que uma casa era feita de paredes.

Só depois entendeu que não.

Uma casa era feita de ruídos: o portão abrindo no fim da tarde, a chave girando duas vezes na fechadura, o copo pousado sobre a mesa, o chuveiro ligado enquanto alguém cantava desafinado no banheiro. Era feita também das coisas que ninguém via — dos silêncios depois de uma discussão, das esperas, dos planos adiados, das pequenas concessões que, somadas, acabavam parecendo uma vida inteira.

A casa deles estava sendo demolida numa terça-feira de setembro.

Ela ficou do outro lado da rua, olhando.

A primeira parede caiu às dez e vinte.

Não sentiu nada.

Ou talvez tenha sentido tudo de uma vez e, por isso, não tenha conseguido identificar coisa alguma.

O homem que operava a máquina fez um gesto para o ajudante, e mais uma parte da sala desapareceu. Atrás dos tijolos, surgiu o papel de parede antigo, ainda preso em alguns pedaços. Era azul-claro.

Ela quase sorriu.

Tinha escolhido aquele azul.

Na época, achava que azul deixava a sala maior.

Havia quarenta e dois anos que entrara naquela casa pela primeira vez. Tinha vinte e cinco, um vestido amarelo e a convicção, hoje quase comovente, de que algumas coisas duravam para sempre simplesmente porque eram importantes.

Ele tinha colocado as caixas no chão e perguntado:

— É aqui que você quer morar?

Ela respondera:

— Quero.

E foi.

Moraram.

Tiveram filhos, contas, domingos, doenças, viagens, parentes, cachorros, aniversários, móveis comprados em prestações. Houve noites em que se amaram como se ainda tivessem vinte anos e outras em que dormiram virados para lados opostos, separados por um espaço de poucos centímetros que parecia um país inteiro.

Houve coisas que ela nunca disse.

Ele também - Penso que assim os casamentos envelhecem -não pela passagem dos anos, mas pelas palavras que iam ficando pelo caminho.

A casa continuava sendo demolida.

No meio da manhã, apareceu a janela da antiga cozinha.

Ela lembrou-se da luz que entrava ali às seis da tarde, especialmente no inverno.

Foi naquela cozinha que ele a abraçara certa vez enquanto ela chorava porque a mãe estava doente.

Foi naquela cozinha que ela recebera a notícia de que o filho passara no vestibular.

Foi naquela cozinha que, muitos anos depois, ele lhe dissera que não queria mais continuar.

Sem gritar.

Sem bater portas.

Apenas dissera.

Ela ainda se lembrava da serenidade daquela frase.

Talvez tivesse sido isso o que mais doera.

Naquele dia, depois que ele saiu, ela permaneceu sentada à mesa durante horas. Não chorou. Ficou olhando para uma pequena mancha de café na toalha.

Pensou que algumas coisas terminavam muito antes de serem pronunciadas.

Agora, vendo a cozinha desaparecer sob a máquina, percebeu que também uma separação podia ser uma espécie de demolição.

Primeiro cai o que todos conseguem ver.

Depois começam a cair as coisas de dentro.

À tarde, o quarto foi ao chão.

Ela não esperava por aquilo.

Virou o rosto.

Ali estavam a cama, o armário, a janela.

Ou melhor: já não estavam.

Durante décadas, aquele quarto tinha sido o lugar onde ela acordava acreditando que a vida ainda estava inteira.

E agora havia apenas entulho.

O homem da máquina desligou o motor por alguns minutos.

Ela atravessou a rua.

Parou diante dos escombros.

Procurou alguma coisa sem saber exatamente o quê.

Encontrou, entre pedaços de tijolo e madeira, uma pequena maçaneta dourada.

Pegou-a.

Ficou olhando para aquela coisa inútil na palma da mão.

Era da porta do quarto.

Guardou no bolso.

Depois voltou para casa.

A casa onde agora morava sozinha.

Abriu a porta, acendeu a luz da sala e percebeu, pela primeira vez, que não havia mais nada naquela sala que tivesse sido escolhido para os dois.

O sofá era dela.

Os quadros eram dela.

As plantas eram dela.

Até o silêncio era dela.

Sentou-se.

Durante alguns minutos, ficou imóvel.

Então levantou.

Foi até o quarto.

Abriu o armário e retirou algumas roupas que não usava havia anos.

Não porque estivessem velhas.

Porque pertenciam a uma mulher que já não existia.

Colocou-as numa sacola.

Depois abriu a gaveta de baixo.

Encontrou fotografias.

Separou algumas.

Rasgou outras.

Não sentiu culpa.

Naquela noite, dormiu profundamente.

Na manhã seguinte, comprou tinta.

Escolheu uma cor que nunca teria escolhido quando era casada.

Verde.

Pintou uma parede.

Depois outra.

Parou diante da terceira e percebeu que não precisava terminar naquele dia.

Sentou no chão, sujou as mãos de tinta e riu sozinha.

Não era felicidade.

Ainda não.

Era apenas uma espécie de espaço.

Um lugar dentro dela onde, depois de tantos anos, alguma coisa começava a caber.

Meses depois, passou novamente pela antiga casa.

Já não havia casa.

No terreno vazio, nascia capim entre os restos.

Ela diminuiu o passo.

Por um instante, procurou mentalmente a janela da cozinha, o quarto, a sala azul.

Nada.

E foi justamente então que compreendeu.

Desconstruir não era destruir.

Era retirar, uma a uma, as coisas que haviam sido colocadas sobre quem ela era até que, debaixo de tudo aquilo, aparecesse alguém que ela quase não conhecia.

Ela mesma.

Parou diante do terreno.

Depois continuou andando.

Sem olhar para trás.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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