Um Lugar Chamado Nós

 Dizem que o amor mora no coração. Nunca acreditei muito nisso.

O coração é inquieto. Acelera, desacelera, se assusta, se engana. O amor parece preferir lugares menos barulhentos.

Talvez ele more na cadeira que continua voltada para a janela porque ninguém teve coragem de mudá-la de lugar.

Na caneca fantasiada de coelhinho que atravessou tantas manhãs que já não combina com a louça nova.

Na árvore que alguém plantou sem imaginar que um dia faria sombra para quem viesse depois.

Há lugares que não aparecem nos mapas.

São feitos de vozes, de esperas, de risos interrompidos pelo cheiro do café, de silêncios que nunca pesaram.

Chamam-se "nós".

É uma palavra pequena para abrigar tanta coisa.

Dentro dela cabem os invernos que enfrentamos de mãos dadas e os verões em que abríamos as janelas antes do amanhecer. Cabem as perdas, porque elas também aprendem o caminho de casa. Cabem as chegadas inesperadas, as despedidas breves, os reencontros que fingem acontecer por acaso.

O curioso é que esse lugar muda o tempo todo.

Às vezes é uma mesa com quatro cadeiras.

Depois passa a ser um banco de praça.

Mais tarde, uma fotografia esquecida dentro de um livro.

Em alguns dias, basta uma coisa comum para que tudo volte a existir por alguns instantes.

Há quem passe a vida procurando paisagens grandiosas. Momentos exuberantes, situações que fazem o coração sair pela boca.

Outros atravessam oceanos atrás de cidades que nunca viram.

E há aqueles que descobrem, quase sem perceber, que o maior lugar onde já estiveram tinha o tamanho exato de um abraço.

Não um abraço apressado.

Um desses que demora o suficiente para o mundo perder a urgência.Talvez  por isso que sentimos falta de certas pessoas antes mesmo de lembrarmos de seus rostos.

Elas levaram consigo um pedaço desse território invisível.

Mesmo assim, alguma coisa permanece.

Como a luz que insiste em entrar por uma lasca do vidro da janela.

Como o perfume das bergamotasmaduras espalhado pelo quintal antes da colheita.

Como o vento que conhece o caminho das casas antigas e continua passando por elas, ainda que as janelas já não sejam as mesmas.

Pensando bem, a vida seja apenas a lenta construção desse lugar onde cabem os nomes que amamos.

Um lugar sem cercas.

Sem endereço.

Sem placas na entrada.

Um lugar chamado nós.

Silvia Marchiori Buss

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