Saiu à Francesa
Há pessoas que atravessam a
vida fazendo muito barulho. Outras, não.
Trabalham, constroem, amam, erram, recomeçam e, quando se vão, deixam um
silêncio que pesa mais do que qualquer discurso.
Alberto era assim.
Começou pequeno. O primeiro
escritório cabia numa sala emprestada, os primeiros sonhos, num bolso apertado.
Trabalhou mais horas do que contou, perdeu noites, ganhou respeito. Nunca fez
questão de ser o homem mais conhecido da cidade; preferia ser aquele em quem se
podia confiar.
A empresa cresceu. Vieram
funcionários, clientes, viagens, contratos. Vieram também as contas, as
preocupações e as alegrias miúdas que só quem constrói conhece. Em casa, criou
os filhos sem manual. Ensinou mais pelo exemplo do que pelas palavras. Mostrou
que compromisso não se anuncia, se cumpre.
Nunca foi de falar de si.
Quando elogiavam seu sucesso, desviava a conversa. Achava que a vida seguia em
frente rápido demais para perder tempo admirando o próprio caminho.
Envelheceu sem perceber. Os
cabelos embranqueceram enquanto continuava fazendo planos. Ainda visitava a
empresa, conversava com antigos colegas, acompanhava a família crescer.
Numa manhã qualquer, o
coração decidiu encerrar a jornada.
Sem longas despedidas. Sem
discursos preparados. Sem reunir todos ao redor da cama. Apenas foi.
Saiu à francesa.
Os filhos encontraram seus
papéis organizados, as contas em dia, fotografias guardadas em envelopes
amarelados, pequenas anotações escritas com uma letra já conhecida. A empresa
continuava funcionando. As árvores que plantara davam sombra. Os netos ainda
repetiam algumas de suas expressões sem perceber de onde haviam aprendido.
Só então entenderam que
algumas pessoas se despedem muito antes da morte, quando deixam tudo pronto
para que a vida dos outros continue.
Não porque desejassem
partir.
Mas porque viveram de um
jeito que nunca dependeram de aplausos.
Alberto não escreveu um
último bilhete. Não fez recomendações solenes. Não pediu homenagens.
Apenas fechou a porta com a
mesma discrição com que sempre abriu todas as outras.
E, por muito tempo, quem
passava pela empresa ainda tinha a impressão de que ele surgiria na esquina,
cumprimentaria o porteiro, ajeitaria o relógio no pulso e seguiria para mais um
dia de trabalho.
Mas algumas ausências não
anunciam sua chegada.
Elas apenas entram em
silêncio, ocupam uma cadeira vazia e permanecem ali, lembrando que há quem faça
da própria vida uma obra inteira... e da partida, apenas um gesto delicado.
Como quem sai à francesa.
Silvia Marchiori Buss
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