Quando o Céu Escolhe a Mesma Cor da Saudade

Existem dias em que o sol pesa.

Parece estranho dizer isso. Fomos ensinados a desejar manhãs claras, céu azul, janelas abertas, gente sorrindo. Como se a felicidade tivesse uma cor oficial e ela fosse sempre luminosa.

Mas quem vive uma ausência profunda sabe que nem sempre.

Há dias em que a saudade prefere as nuvens.

Não porque a gente deseje tristeza para o mundo. Muito pelo contrário. Que todos tenham dias claros, alegres, cheios de risos e de encontros. A dor que carregamos já basta. Ela não precisa ser dividida nem multiplicada.

Mas, às vezes, o coração procura um céu que se pareça com ele.

Depois de tantos anos vivendo ao lado da pessoa que se ama, a ausência não ocupa apenas um lugar da casa. Ela ocupa o corpo. Caminha junto. Dorme ao lado. Senta-se à mesa. E há momentos em que ela se torna quase física. Dói nos ombros, aperta o peito, cansa as pernas, como se a saudade tivesse aprendido a morar nos músculos.

Durante muito tempo, pensei que as lembranças seriam um remédio. Imaginava que, com o passar dos meses, elas deixariam de ferir e passariam apenas a aquecer. Que a memória fosse costurando, devagar, aquilo que a perda havia rasgado.

Foi um engano bonito, mas ainda assim um engano.

Há dias em que a lembrança não consola. Ela abre novamente o que parecia fechado. Como uma cicatriz antiga que, sem aviso, volta a arder. E a gente descobre que o tempo não anda em linha reta. Há manhãs em que ele parece voltar muitos passos, trazendo de volta cheiros, vozes, gestos e silêncios.

Nesses dias, o céu encoberto faz companhia.

A chuva tem uma delicadeza que poucas coisas possuem. Ela não faz perguntas. Não exige coragem. Não pede que a gente sorria. Apenas cai.

Talvez por isso eu goste dos dias nublados quando a saudade aperta. Eles não tentam me convencer de que tudo está bem. Não iluminam aquilo que ainda dói. Apenas permanecem ali, silenciosos, como quem compreende que existem lágrimas que não precisam ser escondidas.

Já o sol... o sol às vezes me machuca.

Sua claridade me devolve tantos dias felizes que vivi ao lado do meu amor. E foram muitos. A maioria deles era ensolarada. Mesmo quando chovia do lado de fora, havia sol dentro de casa. A alegria que construímos era maior que qualquer previsão do tempo.

Talvez seja justamente por isso que hoje a luz me alcance de outro jeito. Ela ilumina um tempo que não volta. E, por alguns instantes, minha retina parece não suportar tanta lembrança.

Há dias em que o céu chora comigo.

E, sem dizer palavra alguma, acaba sendo a companhia mais fiel que encontro.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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