Olhos Verdes

Havia um tempo em que as pessoas comentavam sobre os olhos dela.

Não eram apenas verdes. Eram vivos.

Tinham o verde das folhas depois da chuva, das uvas ainda no pé, das águas rasas onde o sol consegue tocar o fundo. Quem conversava com ela tinha a impressão de que aqueles olhos sorriam antes da boca.

Ela nunca deu importância a isso. Achava exagero.

Os anos passaram carregando o que os anos sempre carregam. Vieram os filhos, o trabalho, as preocupações pequenas que ocupam dias inteiros e as grandes que ocupam noites. Vieram as despedidas. Algumas discretas, outras capazes de dividir a vida em antes e depois.

Sem perceber, deixou de olhar demoradamente para as pessoas. Olhava para os relógios, para as contas, para o celular, para o chão. Continuava enxergando tudo, mas já não demorava o olhar em nada.

Certa manhã, enquanto esperava sua vez no consultório, uma menina sentou-se ao seu lado. Devia ter uns seis anos. Observou-a por alguns segundos e perguntou, com a sinceridade que só as crianças possuem:

— Seus olhos são verdes?

Ela sorriu.

— São.

A menina franziu a testa.

— Achei que eram... mas eles parecem cansados.

Não houve resposta.

Durante o caminho de volta para casa, aquela frase continuou caminhando ao lado dela.

Naquela noite, abriu um álbum antigo. Encontrou fotografias esquecidas. Em quase todas, havia alguém ao seu lado. Em todas, seus olhos pareciam acesos. Não era a juventude. Também não era a ausência de rugas.

Era outra coisa.

Levou algum tempo para entender que os olhos não brilham porque são verdes, castanhos ou azuis. Brilham porque existe alguma coisa dentro deles querendo encontrar o mundo.

Quando a gente ama, o olhar vai na frente da palavra. Espera. Acolhe. Descobre detalhes que ninguém mais vê. É como se uma pequena luz morasse atrás das pupilas e insistisse em escapar.

A falta de amor também deixa marcas.

Não apenas o amor entre duas pessoas. A falta de entusiasmo, de curiosidade, de encontros, de música, de risadas sem motivo. A vida, quando vai ficando pesada demais, parece apagar as janelas por onde a alma costumava aparecer.

Dias depois, ao passar diante de uma vitrine, viu seu reflexo.

Parou.

Os olhos continuavam verdes.

O espelho apenas lhe mostrou que a cor permanecia intacta. O que andava faltando não era o verde. Era a claridade que um dia fez daquele verde um lugar onde alguém gostava de permanecer.

Ficou alguns instantes olhando para si mesma.

Como quem reencontra uma velha conhecida.

E, sem dizer palavra, teve a impressão de que aqueles olhos ainda sabiam esperar.

Silvia Marchiori Buss

 

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