O Cérebro Aprende Caminhos
Há alguns anos, a ciência começou a falar com mais clareza sobre a plasticidade do cérebro. Um nome complicado para uma ideia bastante simples: o cérebro muda. Ele cria novos caminhos, fortalece aqueles que usamos com frequência e vai se adaptando ao modo como vivemos, pensamos e sentimos.
É como uma estrada de
terra. Quanto mais carros passam por ela, mais marcada ela fica. Depois de
algum tempo, quase ninguém pensa em abrir outro caminho. Todos seguem pelos
mesmos sulcos.
Com o cérebro acontece algo
parecido.
Se, todos os dias,
alimentamos apenas a dor, a perda, a preocupação ou a solidão, não é que esses
sentimentos sejam inventados. Eles existem, são legítimos. Mas o cérebro vai
aprendendo que esse é o lugar para onde deve voltar. Ele passa a reconhecer esse
território como familiar. E aquilo que era um sentimento começa, pouco a pouco,
a ocupar espaço demais.
É por isso que duas pessoas
vivendo situações semelhantes podem reagir de maneiras tão diferentes. Não
porque uma seja mais forte que a outra, mas porque seus cérebros foram
aprendendo percursos diferentes ao longo da vida.
Gosto de pensar que isso
conversa com uma ideia muito antiga, quase poética: a de que o universo devolve
aquilo que lançamos a ele.
A ciência não fala em: “ O universo
devolve”... Fala em conexões neurais, em atenção, em repetição, em circuitos
que se fortalecem. A poesia prefere dizer que nossos pensamentos encontram eco
no mundo.
No fundo, talvez estejam
olhando para a mesma paisagem por janelas diferentes.
Quando dedicamos algum
tempo para perceber o canto de um pássaro, uma boa conversa, uma música que nos
emociona, o cheiro do café ou o abraço de alguém, não estamos fingindo que a
dor acabou. Estamos apenas dizendo ao cérebro que existe mais vida acontecendo
além dela.
Isso também deixa marcas.
Não se trata de negar o
sofrimento. Quem perdeu alguém, quem atravessa uma doença ou vive dias difíceis
sabe que não existe botão para desligar a tristeza.
Mas existe uma escolha
silenciosa que fazemos todos os dias: decidir se permitiremos que ela ocupe a
casa inteira ou apenas um dos cômodos.
O cérebro aprende com
aquilo que repetimos.
Se repetimos apenas o medo,
ele se especializa em encontrar motivos para ter medo. Se repetimos apenas a
saudade, ele passa a procurar lembranças em cada esquina. Mas, se repetimos
pequenos gestos de esperança, de curiosidade, de gratidão ou de afeto, ele
também aprende esse caminho.
Talvez seja essa a boa
notícia escondida na ciência.
Nosso cérebro não é uma
sentença. É uma construção permanente.
Antes de ser ciência ou de
ser poesia prefiro crer que seja a vida
respondendo aos caminhos que escolhemos percorrer por dentro.
Silvia Marchiori Buss
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