Não Te Assusta! É a Saudade Chegando a Galope
Isabel estava na cozinha quando sentiu que alguém havia entrado na casa.
Não ouviu a porta. Nenhum
passo no corredor. Nem o rangido da madeira antiga, que sempre denunciava
qualquer visita.
Mesmo assim, ergueu os
olhos da xícara de café.
Sorriu de leve.
— Não te assusta... é a
saudade chegando a galope.
Falava isso para si mesma
havia alguns anos.
Descobrira que a saudade
não combina com relógios. Não marca horário nem avisa que está vindo. Às vezes
aparece num domingo cheio de gente. Outras, escolhe uma terça-feira qualquer,
quando tudo parece tão comum que ninguém esperaria ser atravessado por uma
lembrança.
Basta pouca coisa.
O perfume de alguém no
elevador.
Uma camisa azul pendurada
numa vitrine.
Uma música esquecida
tocando baixinho no rádio de um táxi.
E pronto.
A casa continua igual. A
rua continua passando diante da janela. O café continua quente. Só quem muda é
o coração, que por alguns minutos deixa o presente de lado e vai buscar um
pedaço de outro tempo.
Isabel nunca soube explicar
onde as lembranças ficam guardadas.
Há dias em que ela precisa
fazer força para recordar um rosto. Em compensação, basta fechar os olhos para
ouvir uma gargalhada inteira, como se ela tivesse acabado de ecoar pela sala.
Há lembranças que chegam
completas.
Outras aparecem feito
fotografia antiga, com as bordas gastas.
A morte tem dessas coisas.
Leva a presença, mas não
consegue organizar a bagunça que alguém deixou dentro da gente.
Continua existindo uma
cadeira preferida.
Uma expressão repetida sem
perceber.
Um prato que nunca mais foi
preparado do mesmo jeito.
Um lado da cama que
permanece intacto.
Até o silêncio muda de
lugar.
No começo, Isabel
acreditava que precisava fugir dessas visitas.
Saía para caminhar.
Ligava a televisão.
Inventava tarefas.
Como se fosse possível
distrair a saudade.
Depois percebeu que ela
sempre acabava encontrando o caminho.
Sentava-se ao lado dela
enquanto descascava uma laranja.
Esperava no banco da praça.
Acompanhava as viagens de
ônibus olhando pela mesma janela.
Entrava junto quando ela
voltava para casa carregando as compras.
E havia dias em que vinha
tão forte que parecia levantar poeira por onde passava.
Nesses dias, Isabel já não
brigava.
Deixava que entrasse.
Enquanto arrumava os
armários, lembrava das mãos que também gostavam de organizar tudo por tamanhos.
Quando passava manteiga no
pão, ria sozinha porque ainda cortava as fatias grossas demais, exatamente como
ele reclamava.
Havia uma planta na varanda
que insistia em florescer todos os invernos.
Ela nunca soube por quê.
Também nunca arrancou.
apenas acompanhava seus invernos.
A vida foi seguindo.
Vieram crianças correndo
pela calçada, vizinhos novos, prédios onde antes existiam jardins, cabelos
brancos refletindo no espelho da entrada.
Tudo continuava
acontecendo.
E, no meio disso, a saudade
fazia suas aparições.
Nem sempre triste.
Às vezes chegava carregando
um riso.
Outras, uma conversa
inteira.
Em certas manhãs, era só
uma sensação difícil de explicar, dessas que fazem a gente olhar pela janela
sem estar procurando nada.
O café esfriou sobre a
mesa.
Lá fora, o vento
atravessava as árvores como fazia todos os invernos.
Isabel permaneceu sentada
por mais alguns minutos.
Não esperava ninguém.
Ainda assim, teve a
impressão de que a casa estava um pouco mais cheia.
E deixou que aquele
silêncio permanecesse onde estava, sem perguntar por quanto tempo.
Silvia Marchiori Buss
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