Feito Água Enfrentando Pedra

 Há quem imagine que a força faz barulho.

Que chega batendo portas, levantando a voz, impondo presença. Mas a natureza nunca pareceu pensar assim. Basta olhar um rio.

Ele não discute com a pedra.

Não a desafia.

Não tenta vencê-la de uma vez.

Apenas continua.

Lúcia demorou muitos anos para entender esse movimento. Durante boa parte da vida acreditou que viver era enfrentar tudo de frente, sem recuar um passo. Brigou pelo casamento, pelos filhos, pelo trabalho, pelos pais doentes. Defendia o que amava com unhas e dentes. Ceder, para ela, tinha gosto de derrota.

Até aparecer uma pedra grande demais.

Não havia argumento, coragem ou insistência que fosse capaz de tirá-la do caminho.

Nos primeiros tempos, fez o que sempre soubera fazer: insistiu. Bateu contra aquela realidade até perder as forças. Quanto mais tentava mudar o que não dependia dela, mais se machucava.

Com o passar dos meses, algumas atitudes foram mudando, quase sem que percebesse.

Parou de empurrar certas situações.

Deixou algumas perguntas sem resposta.

Aprendeu a caminhar com dores que não tinham cura imediata. Eram como uma sacola pesada: ninguém escolhe carregá-la, mas, depois de um tempo, o corpo encontra um jeito.

Os problemas não desapareceram.

Ela apenas deixou de gastar toda a energia lutando contra o que permanecia imóvel.

Certo dia, sentada à beira de um riacho, ficou observando a água passar entre as pedras. Algumas eram enormes. Outras, quase invisíveis. Nenhuma conseguia deter o curso da corrente.

A água encontrava um espaço.

Quando não encontrava, inventava outro.

Às vezes desaparecia por baixo das pedras e voltava adiante, como se o caminho nunca tivesse sido interrompido.

Lúcia ficou olhando aquela cena por um longo tempo.

A pedra continuava ali.

A água também.

Mas não era uma disputa.

Era outra coisa.

Quando alguém lhe dizia que ela era forte, sorria, agradecia e mudava de assunto. Nunca soube bem se era força.

Talvez fosse apenas movimento.

Havia dias de correnteza, dias de lentidão, dias em que parecia não avançar quase nada. Ainda assim, alguma parte dela seguia procurando passagem.

Os rios não vencem as pedras.

Também não desistem delas.

Continuam.

E, sem fazer barulho, acabam desenhando outros caminhos.

Silvia Marchiori Buss

 

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