Desejos

Quando criança, Clara acreditava que os desejos tinham peso.

Os pequenos cabiam no bolso do casaco: um par de sapatos novos, um sorvete de domingo, uma bicicleta azul igual à da vizinha. Os grandes precisavam ser carregados com as duas mãos. Eram desajeitados, escorregavam, ocupavam espaço dentro da gente.

Com o tempo descobriu que ninguém deixava de desejar. Apenas aprendia a esconder.

Seu pai desejava chuva e olhava o céu como quem esperava uma resposta. A mãe desejava silêncio. A vizinha da esquina desejava vender a casa, mas continuava regando as roseiras todas as manhãs. O rapaz da padaria desejava ir embora da cidade e, enquanto servia os pães, perguntava aos fregueses como estava o movimento na praça, como se aquilo ainda lhe bastasse.

Clara também colecionava desejos.

Alguns se realizaram tão depressa que quase não deixaram lembrança. Outros ficaram esquecidos em alguma dobra da vida. Havia ainda aqueles que mudaram de nome sem que ela percebesse.

Numa tarde, limpando uma antiga cômoda, encontrou uma caixa de papelão. Dentro estavam fotografias, contas pagas, um bilhete de cinema, uma fita desbotada e uma folha arrancada de um caderno.

Era uma lista.

No alto da página, sua letra de muitos anos antes.

Debaixo, uma sequência de desejos.

Sorriu ao ler alguns. Estranhou outros. Houve um que já nem fazia sentido. Outro lhe pareceu pequeno demais para ter ocupado tanto espaço.

Dobrou a folha com cuidado e a devolveu à caixa.

Naquela noite, sentou-se na varanda. A rua era a mesma de sempre. Um cachorro latiu ao longe. Um casal passou discutindo baixinho. Um menino atravessou a calçada correndo atrás de uma bola que insistia em escapar.

Clara percebeu que os desejos nunca desaparecem completamente.

Uns envelhecem conosco. Outros escolhem outra pessoa para continuar existindo. Há os que ficam pelo caminho, como sementes levadas pelo vento. E existem aqueles que permanecem quietos, sem cobrar nada, apenas lembrando que viver também é continuar querendo alguma coisa.

Ela ficou olhando a rua até anoitecer.

Sobre a mesa, a velha lista permanecia dobrada, tão discreta quanto os desejos que ainda não tinham encontrado destino.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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