Às Vezes

Às vezes, ela tinha a impressão de viver na estreita faixa entre duas margens.

Não porque acreditasse em milagres ou esperasse algum sinal extraordinário. Também não imaginava que um dia ouviria passos no corredor ou sentiria uma mão pousar sobre a sua. Era apenas uma sensação difícil de explicar. Como quem mora à beira de um rio e, mesmo nas manhãs em que a neblina escondia tudo, sabia que a outra margem continuava existindo.

A casa permanecia quase igual. Os livros ocupavam as mesmas estantes. As fotografias continuavam espalhadas pelos móveis, sem ordem alguma. A xícara preferida dele seguia no armário, misturada às demais, como sempre estivera.

Ela nunca transformou a ausência em altar.

Aprendera, aos poucos, que algumas lembranças respiram melhor quando permanecem no lugar de onde vieram.

Mesmo assim, conversava com ele.

Nunca em voz alta. As palavras surgiam enquanto dobrava roupas recém-passadas, regava as plantas da varanda ou escolhia tomates na feira.

— Hoje fez um frio danado...

Ou então:

— Você certamente reclamaria desse trânsito.

Às vezes sorria sozinha ao ver uma criança correndo pela praça.

— Olha só... lembra tanto a nossa neta.

Não esperava resposta. Nem imaginava que ela pudesse existir.

Talvez nem estivesse falando com ele.

Talvez apenas mantivesse viva uma linguagem que os dois haviam inventado ao longo de quase cinquenta anos, feita dessas pequenas frases que ninguém considera importantes, mas que sustentam uma vida inteira.

Havia manhãs em que acordava convencida de que sonhara com ele. Noutras, o sonho desaparecia antes mesmo de abrir os olhos, deixando apenas uma serenidade difícil de explicar, como acontece depois de uma conversa da qual esquecemos as palavras, mas guardamos o abraço.

Nunca comentou isso com ninguém.

As pessoas gostam de dar rótulo às coisas.

Saudade.

Luto.

Negação.

Fé.

Carência.

Ela não sentia necessidade de escolher nenhuma delas. Gostava de pensar que o amor construía lugares que não apareciam em mapas nem podiam ser medidos pelo tempo.

Numa tarde chuvosa, sentou-se diante da janela.

As gotas desciam lentamente pelo vidro, desenhando caminhos que se cruzavam antes de desaparecer.

Ficou imaginando onde terminavam as lembranças e onde começavam os devaneios.

Depois de algum tempo, percebeu que essa fronteira não existe.

Foi então que uma antiga viagem voltou inteira à sua memória.

Os dois percorriam uma estrada cercada por araucárias. Ele reduziu a velocidade sem motivo aparente, apenas para olhar a paisagem.

— Tem paisagens que não servem para chegar — disse. — Servem para atravessar devagar.

Naquele tempo ela apenas sorriu, achando bonita a observação.

Só muitos anos depois compreendeu que algumas dores também eram assim.

Não levavam a lugar algum.

Pediam apenas que fossem atravessadas sem pressa.

Quando a noite chegou, ela apagou as luzes da casa uma a uma.

Ao passar pelo corredor, quase disse, como fizera durante décadas:

— Vou dormir.

As palavras ficaram apenas no pensamento.

Ainda assim, sorriu.

Fechou a janela do quarto.

O vento trouxe o perfume discreto da terra molhada, misturado ao cheiro do jardim depois da chuva. Ela respirou profundamente, como quem abre espaço dentro de si para que a memória entrasse.

Do lado de fora, tudo permanecia silencioso.

Do lado de dentro, também.

 Era um silêncio diferente. Um silêncio povoado.

Enquanto ajeitava o cobertor, teve novamente aquela velha impressão de caminhar entre duas margens. Não pertencia completamente ao ontem, embora o carregasse consigo. Também não vivia apenas no presente, porque o presente é um fragmento do tempo, sem espaço aparente...o futuro ela deixou pra quando acordasse.

Não prender alguém ao passado nem esperar reencontros impossíveis, mas descobrir que algumas presenças deixam de ocupar um lugar na casa para ocupar um lugar dentro do tempo.

Ela apagou o abajur.

O quarto mergulhou na penumbra, enquanto a chuva continuava caindo lá fora, paciente, como se conhecesse o caminho entre uma margem e outra.

Antes de fechar os olhos, teve a impressão de que existiam travessias que nunca terminavam.

E, curiosamente, já não desejava chegar.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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