A Cidade Nem Tão Maravilhosa

 Dizem que algumas cidades nasceram para encantar.

Têm avenidas largas, árvores antigas, cafés cheios, praças onde o tempo parece andar mais devagar. E há aquelas cuja beleza começou antes mesmo das casas: montanhas desenhando o horizonte, ora nítidas, ora escondidas por uma névoa fina; o mar se abrindo adiante, mudando de cor conforme o céu, azul nas manhãs claras, cinzento nos dias de chuva, dourado quando a tarde começa a cair.

Entre as curvas dos morros, o movimento das águas e a luz pousada sobre os telhados, a cidade se oferece inteira aos olhos, como se soubesse o quanto é bonita.

Talvez seja mesmo.

Mas as cidades nunca são apenas ruas, prédios, montanhas ou mar.

São também as pessoas que as habitam dentro de nós.

Desde que você partiu, ela perdeu um pouco da sua vocação para a beleza.

O sol continua encontrando as fachadas pela manhã. As montanhas ainda recortam o céu, firmes e silenciosas. O mar permanece ali, respirando em ondas, recebendo barcos, devolvendo reflexos. O vento atravessa as praças, os semáforos mudam de cor, os ônibus passam, as vitrines convidam, os restaurantes se enchem de vozes.

Tudo segue exatamente onde sempre esteve.

E, ainda assim, falta alguma coisa.

Falta aquele olhar que transformava uma caminhada comum em passeio. Falta a conversa que fazia qualquer esquina parecer importante. Falta o riso que iluminava mais do que as luzes da avenida quando a noite chegava.

Descobri que não era apenas a cidade que me fazia feliz.

Era você dentro dela.

Era você diante do mar, olhando as águas como quem procura alguma coisa muito longe. Era você reparando o desenho das montanhas, comentando uma nuvem, um barco, uma mudança no vento. Ao seu lado, a paisagem parecia mais próxima, como se tudo tivesse sido colocado ali para ser visto por nós dois.

Você diminuía as distâncias. Tornava qualquer caminho curto demais. Ao seu lado, até o trânsito parecia menos impaciente, a chuva encontrava seu ritmo, e um banco voltado para o mar podia ser o melhor lugar do mundo.

Hoje a cidade continua sendo chamada de maravilhosa.

Eu sorrio quando escuto isso.

Ela talvez ainda seja para quem chega agora, para quem vê as montanhas surgindo atrás dos prédios e se surpreende com a luz sobre o mar. Para quem fotografa o horizonte, percorre as avenidas e acredita que tanta beleza basta.

Mas eu vivi a cidade com você.

E, depois disso, o mar sozinho já não consegue produzir o mesmo encantamento. As montanhas continuam belas, mas parecem mais distantes. O céu ainda muda de cor no fim da tarde, embora já não encontre em mim a mesma pressa de olhar.

Há dias em que a cidade se esforça.

Abre o céu, acende o mar, desenha com nitidez cada dobra das montanhas. Mostra suas árvores, suas praças, suas casas antigas, como quem tenta provar que nada mudou.

Eu vejo tudo.

Reconheço a beleza.

Mas também reconheço o vazio.

As noites acendem milhares de lâmpadas, e nenhuma delas alcança a claridade que você deixava pelo caminho. O mar se cobre de brilho, as montanhas recebem o último sol, e a cidade continua maravilhosa para o mundo.

Para mim, nem tanto.

Não porque tenha perdido suas paisagens.

Mas porque perdeu você dentro delas.

Não foi o mar que mudou.

Não foram as montanhas.

Foi a ausência de quem fazia tudo parecer mais bonito.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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