Se Eu Soubesse O Que Sei Agora...
Ela descobriu que existem ausências que não se deixam
preencher. Nem com gente dentro de casa, nem com abraços demorados, nem com
telefonemas, nem com as mãos estendidas de quem deseja, sinceramente, fazer
companhia.
Havia aprendido isso depois que ele partiu.
Antes, pensava que a solidão era coisa de quem não
tinha ninguém. Uma casa vazia, uma cadeira sem companhia, uma tarde comprida
demais. Agora sabia que não era bem assim. Podia estar rodeada de filhos,
netos, amigos, receber beijos, ouvir histórias, rir de alguma bobagem e, ainda
assim, sentir uma espécie de desencontro com o mundo.
As pessoas a amavam. Ela sabia. Não precisava que lhe
dissessem tantas vezes. Havia carinho nos pequenos cuidados, nas perguntas
sobre o almoço, nas mensagens perguntando se tinha dormido bem, nas mãos que
procuravam as suas. E ela recebia tudo. Com gratidão, com ternura, às vezes até
com uma alegria que a surpreendia.
Mas o toque era outro.
O abraço tinha outro peso, outra temperatura. A voz
que lhe perguntava alguma coisa não tinha aquela entonação que ela reconheceria
mesmo no meio de uma multidão. As conversas eram boas, algumas deliciosas, mas
faltava aquela liberdade de não precisar explicar coisa alguma. Com ele, podia
começar uma frase pelo meio, mudar de assunto, ficar calada, dizer uma bobagem.
Ele conhecia até as pausas.
Ah, se soubesse o que sabe agora...
Talvez tivesse prestado mais atenção à maneira como
ele segurava a xícara de café. Às vezes, ficava olhando para ele enquanto lia
alguma coisa, sem motivo especial. Era uma cena tão comum que não merecia
registro. Ou merecia? Quem poderia imaginar que um dia sentiria falta até do
ruído que fazia ao arrastar a cadeira?
Havia também as pequenas implicâncias. O volume do
rádio, uma opinião sobre política, a mania de deixar alguma coisa fora do
lugar. Ela reclamava. Ele respondia. Depois, quase sempre, os dois acabavam
rindo ou discutindo, mas não importava porque sempre acabava bem. Agora,
algumas dessas lembranças lhe pareciam verdadeiros privilégios.
Não era apenas a falta do homem que amava. Era a falta
da mulher que ela era quando estava com ele.
Essa era uma descoberta difícil de acomodar.
Porque ela continuava sendo mãe, avó, amiga, mulher,
com seus interesses, seus livros, suas viagens, seus escritos e uma curiosidade
ainda bastante viva pelo mundo. Continuava gostando de conversar, de conhecer
lugares, de observar as pessoas, de se surpreender com alguma coisa bonita numa
rua qualquer.
Mas havia uma parte de sua existência que tinha sido
construída a dois. E essa parte não encontrava mais interlocutor.
Às vezes, quando chegava de algum passeio, tinha
vontade de contar alguma coisa. Uma paisagem, uma conversa ou mesmo o preço
absurdo de um objeto numa vitrine. Por alguns segundos, a notícia já estava
pronta dentro dela, endereçada a alguém. Depois vinha aquele pequeno
constrangimento de perceber que não havia mais para quem contar daquela
maneira.
E não era falta de companhia. Era falta de
destinatário.
Começou a entender que o amor não termina
necessariamente quando uma vida termina. Ele muda de lugar, talvez. O amor fica
espalhado pelos objetos, pelos hábitos, pelas palavras que escapam sem querer.
Mas não se torna menos exigente. Continua querendo espaço, querendo voz,
querendo pele.
Havia noites em que se deitava cansada, depois de um
dia cheio de compromissos e afetos. A casa estava em ordem. O telefone
carregando. As notícias do dia já conhecidas. Tudo aparentemente no seu devido
lugar. E, mesmo assim, alguma coisa permanecia fora de alcance.
Não chorava todas as noites. Nem queria. Tinha
descoberto que a saudade não precisa de lágrimas para se fazer presente. Às
vezes, ela aparece numa música, numa receita, num automóvel parecido com o
dele. Outras vezes, não precisa de motivo algum. Simplesmente chega e se senta.
Ela também começava a perceber que não queria
transformar a lembrança numa espécie de altar. Ele não tinha sido um santo, nem
ela uma mulher perfeita. Tinham vivido, discordado, envelhecido juntos, feito
planos, mudado de planos, atravessado tempestades e celebrado pequenas
vitórias. Tinham tido uma vida de verdade. E talvez fosse isso que lhe doía
tanto: a vida continuava acontecendo, mas aquela maneira de vivê-la havia
ficado para trás.
Se soubesse o que sabe agora, teria reclamado menos do
tempo que passavam juntos? Teria deixado o café esfriar mais vezes enquanto
conversavam? Teria adiado algumas obrigações para ficar mais um pouco naquela
cozinha?
Não tinha respostas. E, de certa forma, desconfiava de
que nem queria encontrá-las.
Porque a vida não avisa quando está acontecendo pela
última vez.
Naquela manhã, recebeu a visita de alguém muito
querido. Conversaram demoradamente. Houve café, risadas, histórias antigas. Na
despedida, recebeu um abraço apertado e ficou alguns segundos com os olhos
fechados. Gostava daquele abraço. Gostava daquela pessoa. Gostava de ser amada.
Depois fechou a porta, recolheu as xícaras e ficou um
instante junto à janela.
Lá fora, a cidade seguia com seus ruídos, seus
compromissos, seus desconhecidos apressados. Ela pensou que ainda tinha muita
coisa para viver. Não sabia exatamente o quê, nem de que maneira. Mas havia
curiosidade suficiente para continuar abrindo as janelas.
Passou a mão sobre a mesa, encontrou a marca deixada
pela xícara e sorriu discretamente.
Ah, se soubesse o que sabe agora...
Talvez não tivesse amado diferente. Talvez tivesse
apenas demorado um pouco mais em certas manhãs.
E, enquanto procurava alguma coisa para fazer naquela
tarde, percebeu que ainda conversava com ele por dentro. Contava-lhe as
novidades, discordava de suas antigas opiniões, perguntava o que ele acharia de
determinada notícia.
Havia tanto para contar.
E ela ainda não tinha terminado a conversa.
Silvia Marchiori Buss
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