Quando Batemos à Porta do Céu
Clara tinha uma teoria sobre o céu. Dizia que ele não
ficava acima das nuvens, tampouco depois das montanhas. Estava espalhado pelo
mundo, em pequenos territórios que as pessoas visitavam sem saber. Uma mesa
rodeada de amigos, uma estação de trem onde alguém espera por outro alguém, uma
música ouvida pelo coração e faz o corpo tremer... uma luz que atravessa uma
sala e muda a expressão de quem a percebe.
Henrique achava graça. Era um homem de poucas teorias
e muitas perguntas. Gostava de observar as pessoas, especialmente aquelas que
pareciam carregar uma alegria sem fazer esforço para escondê-la.
— Tu romantizas demais a vida, Clara.
— E tu a observas de longe demais, Henrique.
Tinham essa diferença. Ela entrava nas coisas; ele
gostava de examiná-las antes.
Naquela cidade, havia um edifício antigo, de fachada azul-claro,
onde funcionava uma espécie de clube sem nome. Não era exatamente um clube. As
pessoas chegavam, algumas conhecidas, outras não, sentavam-se onde havia lugar
e permaneciam pelo tempo que desejassem. Havia piano, livros, flores frescas e
uma cozinha que nunca parecia fechar.
Clara frequentava o lugar. Henrique, não.
Até que recebeu dela um pequeno envelope.
Dentro, apenas um cartão:
Hoje, às oito. Traga alguma coisa que não possa ser
embrulhada.
Ele apareceu com um disco de jazz debaixo do braço.
Clara estava junto à janela, conversando com um homem
que falava sobre o mar. Na mesa ao lado, duas mulheres discutiam
apaixonadamente sobre pintura. Um rapaz de cabelos compridos tocava piano sem
prestar atenção aos próprios dedos. Havia risos, interrupções, opiniões
divergentes e uma certa desordem agradável.
Henrique sentou-se.
— Isto é o céu? — perguntou, olhando ao redor.
Clara não respondeu imediatamente. Serviu-lhe vinho,
ajeitou uma flor que tombava dentro do vaso e observou a sala.
— Não sei. Mas há lugares onde a gente não sente
vontade de consultar o relógio.
Mais tarde, alguém colocou o disco que Henrique
trouxera. A música ocupou o ambiente todo. Uma senhora levantou-se e começou a
dançar. Um casal acompanhou seus movimentos. Um desconhecido ofereceu a mão a
Clara, que aceitou com a naturalidade de quem não precisava conhecer o nome de
alguém para compartilhar alguns minutos.
Henrique ficou sentado, observando.
Havia uma espécie de liberdade naquele ambiente.
Ninguém parecia preocupado em impressionar. As conversas não obedeciam a uma
ordem, os assuntos mudavam de direção e as pessoas podiam ser engraçadas,
inteligentes, contraditórias, silenciosas.
Quando Clara voltou, ele perguntou:
— Como descobriste este lugar?
— Bati à porta.
— E abriram?
— Estava aberta. Mas eu precisei entrar.
Henrique olhou novamente para a sala.
Na parede, acima do piano, havia uma pintura estranha:
uma escada que subia em direção a um céu sem horizonte. No último degrau, uma
pequena porta branca. Não havia ninguém subindo. Também não havia ninguém
descendo.
— Quem pintou?
— Um homem que vinha aqui todos os domingos. Dizia que
estava procurando a entrada.
— Encontrou?
Clara sorriu, mas não respondeu.
Do lado de fora, a cidade continuava com seus ruídos,
seus faróis, suas janelas acesas. Dentro, alguém começava outra música. Uma
moça procurava fósforos para acender as velas. O pianista discutia com um
convidado sobre a interpretação de Chopin. Na cozinha, uma gargalhada
atravessou a porta.
Henrique tirou o casaco.
Clara percebeu.
— Vais ficar?
— Ainda não decidi.
Ela voltou a conversar com as mulheres da mesa ao
lado. Ele pediu outro vinho e começou a falar com o homem que entendia de
marés.
Na parede, a pequena porta branca permanecia aberta.
E, por algum motivo, Henrique teve vontade de saber o
que havia do outro lado.
Silvia Marchiori Buss
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