Quando Acordamos os Anjos
Havia uma casa onde os anjos dormiam.
Não eram aqueles anjos de asas brancas, cabelos
dourados e rostos de porcelana que enfeitavam os presépios. Eram outros.
Moravam nos pequenos intervalos da vida, escondidos entre uma xícara de café e
uma conversa interrompida, no gesto de ajeitar a coberta de alguém, no cuidado
de deixar a luz acesa para quem ainda não chegou.
Dormiam profundamente, esses anjos. A humanidade
andava ocupada demais para acordá-los.
As pessoas tinham pressa. Corriam atrás de coisas que
brilhavam, discutiam por razões que já não lembravam, guardavam palavras
bonitas para ocasiões especiais e economizavam abraços como quem teme gastar
alguma coisa preciosa.
Os anjos assistiam a tudo, quietinhos.
Um deles, particularmente inquieto, costumava passear
pelas ruas durante a madrugada. Sentava-se nos bancos das praças, observava os
casais nos restaurantes, espiava pelas janelas e se demorava nas casas onde
alguém chorava baixinho para não acordar os outros.
Certa noite, encontrou uma senhora diante de uma
fotografia.
Ela conversava com a imagem. Contava novidades,
reclamava do preço das coisas, falava dos filhos, dos netos, de uma planta que
insistia em não florescer. Havia duas xícaras sobre a mesa, embora apenas uma
pessoa estivesse sentada.
O anjo ficou intrigado.
— Por que ela continua preparando duas xícaras? —
perguntou a um companheiro.
— Porque existem ausências que ainda ocupam lugar à
mesa — respondeu o outro.
O pequeno anjo não entendeu muito bem. Nunca havia
experimentado a saudade. Para ele, tudo era presença.
Resolveu investigar.
Passou a observar os seres humanos com mais atenção.
Descobriu que algumas pessoas carregavam o mundo nos ombros e ainda encontravam
forças para segurar a mão de um desconhecido. Que havia quem tivesse o coração
partido e, mesmo assim, oferecesse carinho. Que certas pessoas, depois de
atravessarem tempestades, ainda paravam para admirar uma árvore florida.
Descobriu também que o amor não desaparecia na mesma
velocidade em que um corpo deixava de existir.
Havia amor espalhado pela casa inteira. Nos livros com
páginas dobradas, nas músicas que ninguém tinha coragem de retirar da playlist,
nas receitas feitas de memória, nas histórias repetidas tantas vezes que já
pertenciam a todos.
O anjo começou a ficar inquieto.
Voltou ao céu e chamou os outros.
— Precisamos acordar!
— Acordar quem?
— Os anjos. Todos eles. Os que cuidam dos abraços
esquecidos, das palavras engolidas, das pessoas que sorriem enquanto sentem
falta de alguém. Os que ficam responsáveis por lembrar aos humanos que ainda
existe beleza no mundo.
Houve uma movimentação extraordinária.
Alguns anjos abriram as asas, outros procuraram seus
antigos instrumentos, e os mais sonolentos perguntaram se não poderiam deixar
para o dia seguinte.
Mas o pequeno anjo insistiu.
Na manhã seguinte, coisas estranhas começaram a
acontecer.
Uma mulher telefonou para a irmã depois de anos de
silêncio. Um homem pediu desculpas sem acrescentar justificativas. Uma criança
abraçou o avô demoradamente. Alguém ofereceu lugar no ônibus. Um vizinho deixou
flores na porta de uma casa onde havia muita tristeza.
Nada de extraordinário, diriam os jornais.
Mas os anjos sabiam.
Tinham acordado.
E havia algo mais curioso: começaram a aparecer também
nas pessoas que já não acreditavam muito neles. Naquelas que precisavam de
explicações para tudo, que desconfiavam dos milagres e preferiam confiar na
ciência, na matéria, naquilo que os olhos podiam alcançar.
Os anjos não se importavam.
Sabiam que não precisavam ser reconhecidos para
existir.
Continuaram trabalhando nos pequenos acontecimentos,
sem interferir demais na vida de ninguém. Às vezes, provocavam um encontro.
Outras vezes, apenas colocavam uma lembrança no caminho de alguém. Não tinham o
poder de devolver os que partiram, mas pareciam conhecer uma maneira muito
particular de manter certas presenças circulando entre os vivos.
E a senhora das duas xícaras?
Continuou conversando com a fotografia.
Só que, de vez em quando, abria a janela, colocava uma
música e deixava o café esfriar enquanto olhava o movimento da rua.
O pequeno anjo gostava de visitá-la.
Achava bonito aquele modo de continuar amando alguém
que já não podia responder.
Naquela casa, ele aprendeu uma coisa que nem os anjos
mais antigos sabiam explicar direito: há pessoas que passam pela vida da gente
e deixam marcas tão profundas que, depois delas, o mundo inteiro parece ter
aprendido um pouco do seu jeito de existir.
Talvez por isso os anjos precisassem ser acordados.
Havia muito amor precisando de testemunhas.
E, nas madrugadas, quando as casas silenciavam e a
cidade parecia adormecida, pequenas luzes continuavam acesas nas janelas.
Não se sabia ao certo se eram estrelas, lâmpadas
esquecidas, pirilampos ou anjos fazendo suas rondas.
Mas alguém, em algum lugar, ainda estava preparando
café para dois.
Silvia Marchiori Buss
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