Aquela Coisa Estranha
Havia uma coisa estranha acontecendo naquela casa.
Ninguém sabia explicar direito, mas, de uns tempos para cá, os objetos pareciam
ter adquirido vontade própria.
A xícara preferida aparecia sempre no lugar errado. O
relógio atrasava justamente nos dias em que alguém tinha pressa. As flores
duravam mais do que o esperado, e a cadeira da varanda rangia mesmo quando
ninguém estava sentado.
A princípio, atribuíram tudo à idade da casa. Casas
antigas têm dessas coisas, assumem vida, disseram.
Mas havia algo mais.
Certa manhã, a mulher encontrou sobre a mesa um
bilhete escrito com sua própria letra:
— Não esqueça de viver hoje.
Ficou olhando para o papel. Não se lembrava de tê-lo
escrito. Tampouco reconhecia a intenção daquelas palavras, embora a caligrafia
fosse inconfundível.
Guardou o bilhete na gaveta e foi cuidar da vida.
Na rua, um desconhecido sorriu para ela. No mercado,
uma criança derrubou uma maçã e os dois riram da mesma maneira. Mais tarde, um
passarinho entrou pela janela, fez uma breve inspeção na sala e saiu sem dar
satisfação a ninguém.
Aquela coisa estranha continuava.
À noite, enquanto procurava um livro, encontrou uma
fotografia antiga. Nela, duas pessoas estavam abraçadas, com aquela intimidade
de quem já não precisa combinar gestos nem explicar silêncios.
Sentou-se.
Passou os dedos pela fotografia e percebeu que havia
coisas que não obedeciam ao calendário. Certas presenças mudavam de lugar, de
forma, de endereço. Outras permaneciam misturadas aos hábitos, às palavras, aos
pequenos movimentos do cotidiano.
No dia seguinte, a xícara estava novamente sobre a
mesa.
Ela sorriu.
Não sabia se era distração, memória, saudade ou alguma
dessas pequenas desordens que a vida inventa para não ficar excessivamente
organizada.
Só sabia que a casa já não parecia tão silenciosa.
E aquela coisa estranha, que ninguém conseguia
explicar, continuava acontecendo.
Silvia Marchiori Buss
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