Engarrafando as Lágrimas em Pequenos Frascos


Há dias em que a alma transborda. Não avisa, não procura uma razão suficientemente importante para justificar o choro. Simplesmente transborda. E a gente chora. Chora de saudade, de ausência, de cansaço, de amor que não encontrou onde pousar. Chora até por aquilo que não consegue explicar.

Foi num desses dias, em que eu precisava de um abraço que não sabia de onde viria, que uma amiga me disse uma coisa que guardei num lugar muito particular do coração:

— Sabe, o Espírito Santo é o anjo que Deus deixou na Terra para nos abraçar enquanto choramos.

Fiquei pensando naquilo. Que imagem bonita! Um anjo que não vem necessariamente para enxugar nossas lágrimas, tampouco para explicar nossas dores ou resolver os desacertos da vida. Ele vem para ficar. Para nos envolver num abraço invisível enquanto fazemos aquilo que, às vezes, é tudo o que nos resta: chorar.

Desde então, comecei a imaginar que talvez existam pequenos frascos espalhados pelo céu. Frascos de vidro delicado, daqueles antigos, com rolhas pequenas e etiquetas escritas à mão. E que, quando a dor fica grande demais, o Espírito Santo se aproxima, senta ao nosso lado e nos ajuda a engarrafar as lágrimas.

Uma a uma.

As lágrimas da saudade vão para um pequeno frasco azul. As da solidão, para um transparente, porque são difíceis de esconder. As lágrimas de amor ficam num recipiente de vidro âmbar, daqueles que guardam coisas preciosas. Há também as lágrimas que misturam alegria e tristeza, essas são mais difíceis de classificar e talvez precisem de frascos maiores.

Imagino o anjo trabalhando com uma paciência infinita. Não pergunta por que choramos tanto, não nos recomenda coragem, não diz que amanhã será melhor. Apenas segura o frasquinho enquanto despejamos nele aquilo que já não cabe dentro de nós.

E há uma delicadeza nessa ideia: não precisamos deixar de sentir para continuar vivendo. Não precisamos ser fortes o tempo inteiro. Há dores que merecem lágrimas, ausências que não se acomodam em explicações e amores que continuam ocupando espaços mesmo depois que a vida os retira da nossa convivência.

Talvez, por isso que Deus tenha deixado esse anjo por aqui. Porque sabia que, entre uma perda e outra, entre uma despedida e uma manhã qualquer, precisaríamos de alguém que nos lembrasse de que não estamos completamente sozinhos.

Gosto de imaginar que, quando terminamos de chorar, ele fecha cuidadosamente o pequeno frasco, coloca-o numa prateleira do infinito e nos oferece a mão para levantar.

Não leva a saudade embora. Não devolve quem partiu. Não muda a história.

Mas fica.

E, de vez em quando, quando o coração ameaça transbordar novamente, sinto vontade de procurar aquele anjo e perguntar se ainda há espaço na prateleira.

Porque há lágrimas que não terminam nunca. Apenas aprendem a caber em pequenos potes.

E há abraços que, mesmo invisíveis, conseguem nos manter inteiros enquanto choramos.

Penso que seja esse o jeito, mais bonito, que Deus encontrou de permanecer perto de nós.

Silvia Marchiori Buss

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

As Gavetas da Mente e Suas Chaves Específicas (Crônica)

Dona Alzira e o Último Brilho da Bola de Cristal

Famílias Mononucleares