Tudo Virou Pó


Na manhã em que o mundo virou pó, ninguém tossiu.

A poeira não vinha das ruas. Saía das pessoas.

A primeira foi uma senhora na fila do banco. Enquanto procurava a identidade, uma lembrança escapou pelo punho da blusa como cinza de cigarro. Ela não percebeu. Foi atendida, agradeceu, voltou para casa um pouco mais leve — não de corpo, mas de infância.

À tarde, um menino esqueceu o cheiro do pai. Não o rosto. O cheiro. Aquela mistura de graxa, café e chuva que fazia qualquer abraço parecer abrigo. Quando tentou lembrar, abriu-se um espaço branco. Uma fresta sem nome.

No terceiro dia, as cidades ficaram cobertas por uma camada fina de pó acinzentado.

Os jornais culparam a seca. Depois as fábricas. Depois algum país distante.

Erraram.

Era a erosão da memória.

Descobriram isso quando um arqueólogo encontrou um vaso romano intacto e, ao tocá-lo, o objeto se desmanchou inteiro. Não porque fosse frágil. Porque ninguém mais se lembrava das mãos que o haviam moldado.

Foi então que criaram os varredores.

Não varriam ruas. Recolhiam restos de pessoas.

Passavam com vassouras de pelo macio, juntando montinhos invisíveis. Cada punhado era etiquetado: "risada de 1984", "medo de atravessar pontes", "primeira mentira", "última dança".

Diziam que era um serviço científico.

Mentiam.

Era religioso.

Eu conheci um desses homens.

Chamava-se Anselmo e tinha o hábito estranho de cheirar o pó antes de guardá-lo. Dizia que cada vida deixava um perfume diferente. Algumas tinham cheiro de ferro. Outras de sabonete barato. Outras de figo maduro.

"Os arrependimentos", dizia, "cheiram a roupa passada."

Nunca entendi.

Até encontrar um vidro com meu nome.

Não era grande.

Cabia na palma da mão.

Dentro havia um punhado de pó dourado.

Perguntei o que era.

Anselmo respondeu sem abrir o registro.

— É o futuro que você abandonou.

Ri.

Achei que fosse metáfora.

Ele desenroscou a tampa.

O vento fez o resto.

De repente, eu me vi vivendo todas as vidas que não vivi.

A mulher  que nunca fui corria descalça num quintal inexistente. Um cachorro que nunca adotei envelhecia aos meus pés. Uma carta que nunca escrevi chegava a tempo. Um homem cuja mão deixei escapar numa estação não embarcava. Ficava.

Tudo aconteceu.

E desapareceu.

Em menos de um segundo.

Caí de joelhos.

Quando levantei, havia pó sobre meus sapatos.

Pensei em limpá-lo.

Anselmo segurou meu braço.

— Não.

— Por quê?

— Porque amanhã você vai achar que isso foi um sonho.

Olhei para ele.

Seu rosto começava a desfazer-se nas bordas, como um desenho apagado com borracha.

— E você?

Ele sorriu.

— Eu sou feito do pó que ninguém reclamou.

Depois o vento aumentou.

Não houve explosão.

Não houve clarão.

Apenas uma ausência aprendendo a respirar.

Hoje ainda caminho pela cidade.

As pessoas passam por mim carregando pequenas nuvens invisíveis nos ombros.

Às vezes tenho vontade de avisá-las.

Segurem suas lembranças.

Mas me calo.

Porque descobri uma coisa que os varredores nunca escreveram nos relatórios:

o pó não é o que resta da vida.

É o que a vida continua fabricando enquanto tenta, inutilmente, esquecer que um dia foi eterna.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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