Te Querendo Mais e Mais
Não havia música tocando,
ninguém havia ido embora, nenhuma fotografia sobre a mesa, nenhuma lembrança
especialmente bonita naquele instante.
Apenas uma laranja.
E ela.
Com os dedos molhados de
sumo, percebeu de repente que ainda queria.
Aquilo a surpreendeu.
Depois de certa idade, a
gente aprende a diminuir o verbo querer. Queremos menos açúcar, menos barulho,
menos explicações, menos gente entrando em nossa casa sem avisar. Aprendemos a
escolher o restaurante, a cadeira mais confortável, o caminho mais curto.
Ela também havia aprendido.
Mas naquela manhã alguma
coisa dentro dela se recusava a envelhecer no mesmo ritmo do corpo.
Queria mais.
Não sabia exatamente o quê.
Talvez fosse isso que a
deixava tão inquieta.
Durante anos, imaginara que
conhecer a vida era finalmente saber nomear as coisas. Agora descobria o
contrário: havia uma liberdade enorme em não saber.
Vestiu uma roupa que não
usava havia meses.
Uma dessas que ficam
penduradas no armário porque parecem exageradas para uma mulher que já não
precisa impressionar ninguém.
Olhou-se no espelho.
— E por que não?
Perguntou à mulher
refletida.
A mulher do espelho não
respondeu.
Mas pareceu concordar.
Saiu.
Sem destino.
Isso, por si só, já era uma
pequena rebeldia.
Pegou o carro e dirigiu
pela cidade como quem procura uma rua que não aparece no mapa. Parou num café
onde nunca tinha entrado. Sentou-se sozinha, pediu um pedaço de torta e um café
forte.
Na mesa ao lado, duas
mulheres discutiam sobre relacionamento.
Uma dizia que os
relacionamentos não eram como os de antigamente.
A outra dizia que as
mulheres esperavam demais.
Ela teve vontade de entrar
na conversa.
Não entrou.
Ficou ouvindo e pensando
que talvez o amor tivesse sido estragado justamente por tanta gente tentando
explicá-lo.
Amor não era contrato.
Nem promessa.
Nem fotografia bonita.
Às vezes era só aquela
vontade absurda de continuar descobrindo alguém.
Ou de continuar descobrindo
a si mesma.
Pagou a conta e saiu.
No estacionamento,
encontrou um homem tentando colocar uma mala enorme no porta-malas de um carro
pequeno.
Os dois se olharam.
Ele riu.
Ela também.
— Não vai caber — ela
disse.
— Eu também acho.
Ficaram ali, os dois diante
daquela mala impossível.
Ele tentou outra vez.
Não coube.
Ela sugeriu virar de lado.
Coube.
— A senhora salvou minha
viagem.
Ela sorriu.
— Não exagera. Só virei a
mala.
Entrou no carro.
E foi embora.
Só que alguma coisa havia
acontecido.
Não com ele.
Com ela.
Durante muito tempo,
acreditara que a vida precisava trazer acontecimentos extraordinários para
voltar a ser interessante.
Descobriu naquele
estacionamento que não.
Às vezes bastava uma mala
atravessada.
Uma conversa de três
minutos.
Uma roupa esquecida no
armário.
Uma laranja descascada numa
manhã comum.
O extraordinário, talvez,
fosse continuar disponível para o inesperado.
Chegou em casa no fim da
tarde.
Abriu a geladeira.
Não havia nada para o
jantar.
Riu sozinha e não sentiu
obrigação de resolver aquilo.
Pegou a bolsa outra vez.
Convidou-se para jantar.
Sozinha!
Escolheu a mesa que quis.
Pediu o vinho que gostava.
E, enquanto esperava,
pensou nele, sem tristeza. Sem aquela saudade que apertava o peito e pedia
silêncio.
Pensou nele com uma espécie
de ternura quase atrevida.
Entendeu o que aquelas
quatro palavras significavam agora.
Te quero mais e mais.
Não significavam apenas
querer alguém.
Significavam querer mais da
vida que aquela pessoa, mesmo não estando mais aqui, havia despertado nela.
Mais conversa.
Mais corpo.
Mais riso.
Mais curiosidade.
Mais tardes sem
planejamento.
Mais coragem para dizer
sim.
Mais coragem ainda para
dizer não.
Mais viagens.
Mais amigos.
Mais livros rabiscados.
Mais comida boa.
Mais histórias que não
precisassem terminar bem para terem valido a pena.
Mais de si.
Principalmente mais de si.
Ela levantou a taça.
Ninguém sabia para quem
brindava.
Nem precisava saber.
— Te quero mais e mais —
disse baixinho.
Dessa vez, não havia
ausência naquela frase.
Havia apetite.
Essa era a parte da vida
que ninguém lhe ensinara:
que, depois de perder
algumas coisas, ainda se pode ficar faminta de futuro.
Ela sorriu.
E pediu a sobremesa.
Sem culpa.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário