Não Quero Esquecer do Teu Abraço

Havia coisas que o tempo podia levar: a firmeza das vozes, a nitidez dos rostos, até o perfume das manhãs que partilhavam juntos. Mas havia algo que ela se recusava a deixar esvair-se — o abraço dele.

Não era apenas o gesto de dois corpos que se encontram. Era uma casa inteira que se construía no instante em que os braços dele a envolviam. Ali, nada mais importava: nem o ruído da rua, nem a pressa do relógio, nem mesmo as dores que insistiam em habitar a alma. Dentro daquele abraço, ela era inteira.

E havia a energia — a corrente invisível que os atravessava quando se uniam. Era como se o mundo, por um instante, se resignasse à perfeição: o encaixe exato dos corpos, como peças que finalmente encontram o lugar a que pertencem. A respiração dele, misturada à dela, criava um ritmo secreto, só deles. Um compasso que embalava a vida e suspendia o tempo.

No calor da pele contra a pele, havia um reconhecimento antigo, como se o corpo de um tivesse sido moldado para caber no corpo do outro. Não havia esforço, não havia procura: era encontro. Era certeza.

E, nessa proximidade, até os cheiros se tornavam poesia. O aroma dele, misturado ao dela, criava uma fragrância única, que jamais se repetiria em nenhum outro par. Era a química da vida, a alquimia do amor, a fusão que fazia sentido apenas quando estavam juntos. Uma perfeição simples e, justamente por isso, impossível de ser inventada fora daquele instante.

Às vezes, ao deitar-se, fechava os olhos com força e o corpo, quase instintivamente, curvava-se na lembrança desse contorno. Não era imaginação, era memória viva — o calor que permanecia mesmo depois da ausência.

Diziam-lhe que a saudade se amansa com o tempo. Mas ela desconfiava disso. Para ela, a saudade era uma centelha: não apagava, só mudava de lugar. E, no caso do abraço, tinha se transformado em refúgio secreto.

Nas tardes mais silenciosas, quando a solidão parecia pesar demais, ela se deixava estar. Colocava os braços em torno de si mesma, como se fosse possível imitar o gesto. E, por um instante, conseguia. Não era ele, mas era a lembrança dele que a aquecia — como se ainda dissesse, baixinho, perto do ouvido:
— Estou aqui.

E então, sorria. Porque não queria, não podia e não iria esquecer do abraço. Esse era o pedaço eterno dele guardado nela — o lugar onde sempre se encontrariam, ainda que o mundo inteiro teimasse em separá-los.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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