Quando o Amor Traz Dor
Amor também estraga.
Essa frase parece quase uma
heresia, porque nos ensinaram a falar do amor como quem fala de uma coisa
sagrada. Como se amar fosse sempre bonito, generoso, redentor. Não é.
Às vezes, amar é uma
péssima ideia.
A gente entrega a alguém o
lugar exato onde pode ser ferido. E ainda chama isso de confiança.
Foi assim com ela.
Durante muito tempo,
acreditou que o pior do amor era perdê-lo. Depois descobriu que não. O pior
podia ser continuar amando alguém que já não estava ali para receber aquilo.
Era uma espécie de
desperdício.
Amor sobrando dentro de uma
pessoa.
Ela tinha raiva disso.
Raiva das músicas que
insistiam em transformar ausência em poesia. Raiva das fotografias. Raiva das
lembranças que chegavam sem serem convidadas e ocupavam a mesa, a cama, o
domingo.
Até das coisas boas ela
tinha raiva.
Porque tudo podia virar
prova de que aquilo existira.
E existira.
Esse era o problema.
Não havia como apagar uma
história apenas porque ela terminou mal. O passado não tem essa delicadeza.
Ele permanece.
Às vezes, ela pensava que
teria sido mais fácil não ter amado tanto.
Pensamento pequeno.
Mas verdadeiro.
E não se censurava mais por
pensar assim.
Havia uma crueldade em
certas despedidas: elas levam a pessoa, mas deixam intacto tudo aquilo que foi
construído em torno dela.
A casa continua.
Os objetos continuam.
O corpo continua.
E o amor, esse desgraçado,
continua também.
Ela não queria
transformá-lo em saudade bonita.
Não queria agradecer pela
dor.
Não queria dizer que tudo
acontece por alguma razão.
Não acontece.
Há coisas que simplesmente
acontecem e deixam estragos.
Naquela noite, apagou a luz
e ficou olhando para o teto.
Não chorou.
Também não sorriu.
Pensou nele.
Pensou nela.
Na mulher que tinha sido
antes daquele amor.
E na mulher que sobrara
depois.
Talvez fosse essa a parte
mais difícil: descobrir que o amor não tinha levado apenas alguém.
Tinha levado uma parte
dela.
E essa não voltaria.
Silvia Marchiori Buss
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