Os Cinquenta Tons de Cinza de Dona Catarina

 

Dona Catarina nunca tinha lido o famoso livro dos cinquenta tons de cinza.

Na verdade, nem sabia exatamente do que se tratava.

Quando as amigas comentavam sobre a história, ela apenas sorria e fingia entender.

— Deve ser sobre decoração... — pensava. — Cinza combina com tudo.

Mas um dia, aos sessenta e sete, aconteceu uma coisa que ela julgava impossível: apaixonou-se.

Não foi por um galã de novela.

Nem por um milionário elegante.

Nem por um poeta de cabelos brancos olhando o pôr do sol.

Apaixonou-se por seu Anselmo, um senhor de setenta e oito anos que frequentava a mesma praça onde ela alimentava os pombos todas as tardes.

Ele tinha uma barriga respeitável, um joelho que estalava ao sentar e um aparelho auditivo que insistia em falhar nos momentos mais importantes.

Foi amor mesmo assim.

Ou talvez justamente por isso.

No começo, Catarina tentou resistir.

Achava ridículo.

Apaixonar-se naquela idade parecia uma travessura que a vida não deveria permitir.

Mas a vida nunca lhe pediu licença para nada.

Não pediu quando levou seus pais.

Não pediu quando levou amigos.

E também não pediu quando decidiu colocar Anselmo em seu caminho.

Os dois começaram dividindo um banco.

Depois dividiram conversas.

Depois dividiram silêncios.

E, sem perceber, passaram a dividir os dias.

As amigas observavam a transformação.

— Catarina, tu estás diferente.

Ela respondia:

— Estou?

Mas sabia que estava.

Voltou a escolher roupas com mais cuidado.

Passou um batom discreto.

Comprou um perfume novo.

E até voltou a cantar enquanto lavava a louça.

Uma tarde, sentados sob uma árvore, Anselmo segurou sua mão.

Foi um gesto simples.

Pequeno.

Mas Catarina sentiu um tremor percorrer décadas inteiras.

Naquele instante compreendeu uma coisa.

O amor não tinha idade.

Quem envelhecia era o corpo.

O coração continuava jovem, apenas mais cuidadoso.

Naquela noite, olhando-se no espelho, observou os cabelos grisalhos.

Sorriu.

Talvez aqueles fossem os verdadeiros cinquenta tons de cinza.

Ou cem.

Ou mil.

Os tons das experiências vividas.

Das alegrias.

Das perdas.

Das cicatrizes.

Das saudades.

Das vezes em que caiu e levantou.

Dos amores que partiram.

E dos que chegavam quando ninguém mais esperava.

Porque o cinza dos cabelos não era ausência de cor.

Era a soma de todas elas.

Meses depois, quando alguém perguntou como estava seu namoro, Dona Catarina respondeu:

— Não faço ideia se são cinquenta ou cem tons de cinza.

— E que cor são?

Ela pensou por alguns segundos.

Depois sorriu daquele jeito que só quem ama consegue sorrir.

— Não sei.

Mas sei que são felizes.

E, na minha idade, isso já é cor suficiente.

Silvia Marchiori Buss

 

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