O Que Fica Quando Nada Fica
Ela acordou cedo.
A casa estava quieta.
Foi até a cozinha, abriu a
janela e colocou água para o café. Por alguns segundos, procurou a segunda
xícara no armário. Parou. Pegou apenas uma.
Sentou-se à mesa.
A cadeira em frente
continuava no mesmo lugar.
Tomou o café devagar.
Na rua, o padeiro passou de
carrocinha. Uma mulher caminhava com um cachorro. Um ônibus parou na esquina.
Ela saiu.
Caminhou pela praça.
Crianças corriam atrás de
uma bola. Um homem alimentava os pombos. Duas mulheres conversavam num banco.
Sentou-se.
O sol apareceu entre as
árvores.
Ficou ali até sentir calor
no rosto.
Depois continuou andando.
Passou diante de uma loja.
Viu seu reflexo no vidro.
Parou.
Arrumou os cabelos e
seguiu.
Em casa, abriu a gaveta da
sala.
Encontrou uma fotografia.
Os dois estavam na praia.
Ele sorria.
Ela também.
Ficou olhando por alguns
instantes.
Virou a fotografia.
Não havia nada escrito
atrás.
Guardou-a novamente.
À tarde, fez café.
Dessa vez, pegou duas
xícaras.
Colocou uma diante da
outra.
Ficou olhando.
Depois levou uma de volta
ao armário.
No fim do dia, tomou banho
e escolheu uma roupa para a manhã seguinte.
Abriu a janela.
A rua estava iluminada.
Alguém fechou uma porta.
Um carro passou devagar.
Uma criança chamou pela
mãe.
Ela permaneceu ali.
Depois fechou a janela.
Apagou as luzes.
Antes de dormir, olhou o
calendário sobre a mesa.
Amanhã seria quarta-feira.
Deitou-se.
No escuro, estendeu a mão
para o lado da cama.
Ficou assim por alguns
segundos.
Depois recolheu a mão.
Lá fora, um cachorro latiu.
Ela fechou os olhos.
A noite continuou.
Silvia Marchiori Buss
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