O Filme Que Não Terminamos


A noite do dia 18 aconteceu como tantas outras fizemos nossa rotina, deitamos e, quase sem perceber, procuramos nossas mãos. Era assim que terminávamos os dias: encontrando um ao outro no escuro, como quem precisava confirmar que ainda estávamos ali. Assistimos a um filme que não terminamos. Um drama familiar, desses que misturam histórias, conflitos, afetos e pequenas tragédias. Algumas coisas nos pareciam tão conhecidas que comentávamos. Às vezes concordávamos, outras nem tanto. E estava tudo bem. Até nossas discordâncias faziam parte da intimidade que construímos.

Nossas noites eram gostosas. Dormíamos agarrados. Às vezes eu te procurava durante a madrugada; outras, eras tu que me puxavas para perto. Havia uma espécie de conversa silenciosa entre nossos corpos, uma linguagem que quase cinquenta anos juntos haviam inventado sem que precisássemos aprender.

O filme ficou pela metade.

Não havia problema. Teríamos a noite do dia 19 para terminar. Amanhã, pensávamos. Sempre existe um amanhã quando a vida nos acostuma a permanecer.

Mas naquela manhã ensolarada de setembro, tudo mudou.

Foram apenas doze minutos.

Doze minutos entre o instante em que ainda estavas aqui e aquele em que a morte te afastou de mim.

Doze minutos.

É difícil acreditar que uma vida inteira possa ser atravessada por um intervalo tão pequeno. Quase cinquenta anos de histórias, de noites, de viagens, de conversas, de mãos dadas, de planos, de pequenos aborrecimentos e grandes alegrias — tudo isso continuava existindo dentro de mim, enquanto, em apenas doze minutos, alguma coisa vinha te buscar.

Eu me senti impotente diante daquela coisa.

Não sabia o que fazer. Não sabia para onde olhar, o que dizer, como te proteger.

Só consegui repetir:

— Não tenha medo, meu amor.

Como se aquela coisa pudesse me escutar. Como se minhas palavras pudessem alcançá-la. Como se dizer que não tivesses medo pudesse, de alguma maneira, fazer com que ela desistisse de te levar.

Mas ela não desistiu.

Em doze minutos, tu foste abduzido.

Levado para um lugar onde eu não podia ir contigo.

E eu fiquei aqui, tentando entender como alguém pode estar tão perto num instante e, no seguinte, tornar-se ausência.

Nunca mais houve uma noite como aquelas.

Nunca mais procurei uma mão no escuro sem encontrar, antes dela, o vazio.

O teu lado da cama continuou ali. O filme continuou parado. A vida, porém, já não era a mesma.

Às vezes penso que o mais cruel foi justamente não termos terminado aquele filme. Não porque o filme importasse, mas porque ele carregava a nossa certeza inocente de que haveria uma noite seguinte.

Haveria tempo.

Haveria amanhã.

E não houve.

A morte precisou de apenas doze minutos para interromper uma história que levou quase cinquenta anos para ser construída.

Doze minutos para te levar de mim.

Doze minutos para transformar o teu corpo ao meu lado em uma saudade que agora mora em todos os lugares.

E o filme continua pela metade.

Talvez por isso eu ainda pense nele.

Porque algumas coisas ficam suspensas quando alguém parte. Uma frase que não terminou. Um plano que não aconteceu. Uma mão que não encontramos mais no escuro.

E aquela última cena que nós, tão naturalmente, deixaríamos para o dia seguinte.

Só que o dia seguinte chegou sem você.

E eu nunca mais assisti ao final daquele filme.

Silvia Marchiori Buss

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